Entre 1933 e 1962, milhares de portadores de hanseníase sofreram internação compulsória (obrigatória) em sanatórios ou asilos-colônias por todo o Brasil. Em Bauru, o então asilo-colônia Aimorés, hoje Instituto Lauro de Souza Lima, chegou a receber mais de 2.000 doentes. Era uma cidade de excluídos dentro de Bauru. E assim como outras cidades, o asilo-colônia Aimorés tinha várias opções de esporte e lazer para serem desfrutadas por seus moradores. Segundo depoimentos de pessoas que viveram aquela época, o futebol, a bocha, os bailes e as músicas que os alto-falantes irradiavam para todo o asilo-colônia serviam como “analgésico” contra a dor da discriminação e da separação compulsória do restante da família.
“O esporte e o lazer ajudavam a devolver a saúde física e mental. Nós ficávamos contentes com aquilo e servia também para fazer amigos”, relata Nivaldo Mercúrio, 80 anos, morador mais antigo do Instituto Lauro de Souza Lima. Ele foi internado com 16 anos e permanece em Bauru até hoje. Apesar de curado da hanseníase, ele não pensa em deixar o local. Além dele, outras 32 pessoas moram atualmente no instituto.
Descobrir em que medida o esporte e o lazer ajudaram a minimizar o aspecto negativo do confinamento é o objetivo da pesquisa de José Augusto Leandro, 43 anos, e Constantino Ribeiro de Oliveira Júnior, 38 anos, ambos do Paraná, que estiveram no Lauro de Souza Lima em setembro para conhecer o local e conversar com os moradores antigos.
A pesquisa ainda está no início, mas, segundo Oliveira Júnior, o pouco que foi coletado até agora o deixa à vontade para afirmar que as atividades esportivas e de entretenimento foram de suma importância para aliviar o sofrimento dos internos.
Na opinião dele, foi uma forma que os hospitais encontraram de controlar os portadores de hanseníase. “Dentro das ciências humanas e sociais não existem respostas objetivas e verdadeiras. O que existe são possibilidades. Está dentro do espírito humanitarista oferecer uma infra-estrutura adequada, mas também pode ser uma estratégia de dominação. É uma maneira de fazer as pessoas ficarem onde estão”, cogita.
Segundo Leandro, os hospitais-colônia criaram mecanismos de inclusão dentro da exclusão. O esporte e o lazer serviam para unir os doentes, para fazer com que eles se tornassem amigos e começassem a namorar. “Eles (internos) começaram a não querer sair da colônia, porque lá, bem ou mal, eles estavam construindo a vida deles, longe do preconceito da sociedade”, afirma.
O Instituto Lauro de Souza Lima foi escolhido pelos pesquisadores para fazer parte do projeto por ter sido um dos maiores hospitais-colônia do Brasil. O único capaz de fazer frente à antiga colônia de Bauru é o hospital de Pirapitingui, que fica entre Itu e Sorocaba.
“Os hospitais-colônia de Bauru e o Pirapitingui são impressionantes. Eles se impõem pelo tamanho e infra-estrutura”, diz Leandro, doutor em história cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Oliveira Júnior é doutor em educação física pela Universidade de Estadual de Campinas (Unicamp). Ambos lecionam atualmente na Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR).