A trajetória do Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL), antigo asilo-colônia Aimorés, seu modelo de construção e funcionamento representam parte importante da história da hanseníase não só no Estado de São Paulo como em todo o mundo. A memória da instituição faz parte de um projeto mundial que busca resgatar a história da hanseníase no planeta e a total erradicação da doença.
Integram o projeto hospitais-colônia de 26 países, como Canadá, China, Índia, Israel, Japão, Coréia, Portugal e Nigéria, entre outros. Só no Brasil, são 16 pesquisadores empenhados no resgate histórico de 33 antigos leprosários, distribuídos em 11 Estados. O passado e o presente do asilo bauruense está sendo contado para o mundo por Jaime Prado, representante do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) em Bauru.
Segundo ele, a história da instituição é tão rica que a Associação Internacional de Hanseníase abriu espaço para a publicação de 20 fotos do ex-asilo-colônia bauruense em seu site (www.leprosyhistory.org), enquanto outras instituições não têm mais do que oito fotos postadas. No site, é possível acessar as informações do projeto mundial sobre a história da hanseníase. O projeto tem apoio da Fundação Sasakawa, do Japão, e está sendo executado em parceria com o Morhan.
Segundo relata Jaime Prado em seu projeto, a instituição de Bauru foi criada graças à colaboração de outros municípios da região. Em reunião realizada em 25 de setembro de 1927, esses municípios se comprometeram a destinar 10% de suas rendas anuais para a construção de um asilo que fosse grande o suficiente para abrigar os doentes da região.
Como resultado desse esforço, conta Prado em seu projeto, foi criada a Comissão Pró-Leprosos. Com o dinheiro arrecadado, foi possível comprar uma fazenda de 400 alqueires para a construção do asilo. Em 1930, as obras ficaram sob a responsabilidade da Liga de São Lázaro de Bauru, composta por 64 prefeitos. Em 1933, o asilo-colônia Aimorés foi encampado pelo Estado e sua inauguração ocorreu em 13 de abril de 1935.
Em seu trabalho de pesquisa, Prado descobriu que, na década de 30, o Estado de São Paulo adotou uma política oficial de controle da “lepra” baseada no isolamento compulsório de todas as pessoas que fossem identificadas como portadoras da doença. Na época, muitos doentes acampavam nas margens das estradas ou viviam pedindo esmolas nas cidades.
Para resolver esse problema, as autoridades sentiram a necessidade de adotar algumas medidas como, por exemplo, criar espaço para alojar os milhares de doentes que perambulavam pelo Estado. Segundo Prado, essas autoridades tiveram de alcançar a confiança das comunidades médica e jurídica, a fim de criar uma legislação específica que permitisse a exclusão de milhares de pessoas, bem como o gerenciamento de suas vidas.
Para garantir o sucesso dessa iniciativa, era imprescindível também convencer a população da necessidade de isolar os doentes. Para tanto, foi criado um programa “educativo” alertando a população para o perigo que esses doentes representavam e, por isso, precisavam ser encaminhados, voluntariamente ou não, para os exames, que quase sempre resultavam em internação.
Desta forma, o Estado criou uma rede composta por quatro asilos-colônias e um sanatório, todos espalhados em pontos estratégicos para facilitar a cobertura no território paulista. De acordo com Prado, cada um dos asilos possuía instalações mais ou menos padronizadas, consideradas necessárias para a reconstrução de um mundo à parte e capazes de abrigar um grande número de pessoas, sendo que a maioria passaria ali toda sua vida.
Dentre os asilos, o de Bauru foi considerada uma instituição modelo, como demostra um filme realizado pelo Departamento de Profilaxia da Lepra (DPL), em 1944, cujo objetivo era divulgar o serviço profilático paulista para todo o País.
O isolamento compulsório chegou ao fim na década de 60 e durante cerca de dez anos vigorou um regime de transição semi-aberto. Dos 101 hospitais-colônia que existiram no Brasil, cerca de 33 continuam parcialmente ativos. Eles abrigam antigos doentes que passaram quase a vida toda nas colônias e hoje não têm para onde ir.
O asilo-colônia bauruense mudou de nome quatro vezes. Em 1949, 16 anos após sua inauguração, passou a se chamar sanatório Aimorés. Em 1962, mudou para hospital Aimorés. Em 1974, passou a ser denominado Lauro de Souza Lima. E, finalmente, em 1989, ganhou o nome que dura até hoje, ou seja, Instituto Lauro de Souza Lima.