Os gansos de um sítio se reúnem uma vez por semana e ouvem o ganso orador contar sobre o grande ganso que voava livremente e falava da capacidade que os gansos possuem de voar. O grande ganso pregava a liberdade dada pelo criador dos gansos e de como todos os gansos deveriam ter uma vida de igualdade e liberdade. Todos os gansos ficam maravilhados e confortados com as palavras do ganso orador. Porém, terminado o seu discurso, todos voltam a sua vida de gansos no sítio, mas nenhum se atreve a voar. Afinal, o dono do sítio lhes dá a ração diária, mesmo que esta, ao ser jogada no chão, tenha que ser competida pelos gansos que egoisticamente procuram comer o mais rápido possível. Os mais espertos são bem alimentados enquanto que os menos espertos, mais fracos e mais velhos ficam mal alimentados.
Em um conceito fenomenológico, “consciência” não é algo que possuímos, mas justamente a forma como nos relacionamos com o nosso universo. A consciência está entre o eu e o mundo. A consciência nunca é isolada, mas é sempre a consciência de alguma coisa. Ter consciência é ter ciência de algo e este ter ciência de algo é se colocar diante de algo. A maneira como definimos tudo à nossa volta, coisas, animais, pessoas, expressa a nossa consciência sobre elas. Esta consciência é formada no relacionamento com estas coisas, animais e pessoas.
Existem pessoas que possuem a consciência de que seu cachorro é muito mais importante do que uma criança. Esta pessoa poderá até dizer o contrário, mas apesar de seu discurso, a sua atitude diante do bicho de estimação e de uma criança demonstra a verdadeira consciência que possui sobre o cachorro e sobre a criança. Portanto, consciência não é somente o entendimento, mas está na relação entre o eu e o mundo. Esta relação constrói, com o tempo, tanto o nosso eu como transforma o nosso mundo. Se a consciência de uma pessoa valoriza mais o cachorro que uma criança, uma pessoa poderá gastar cerca de três salários mínimos com seu cachorro e se contentar em dar a sobra de comida para a criança que pede à sua porta.
Esta consciência acaba formando o eu desta pessoa que afetivamente está apegada a um animal de estimação e aliviará a própria consciência com o resto de comida dada à criança. Como também esta pessoa transformará seu mundo em um universo no qual animais de estimação são muito melhor tratados que seres humanos. Porém, a doença maior que podemos ter como seres humanos é adquirirmos uma consciência alienada. A consciência alienada parece se formar através daquilo que Freud entendia como superego. Em outras palavras, em nosso desenvolvimento como pessoa o poder de um adulto (que pode ser pai, mãe, tio, isso não importa) é subjetivado. Ou seja, através de nosso apego afetivo precisamos sempre da afirmação deste adulto quando somos crianças.
Aos poucos, este adulto vai sendo introjetado em nosso eu e passa a ser a “voz da consciência”. O importante é perceber que este adulto geralmente nos passa padrões estabelecidos pela sociedade, verdades pré-estabelecidas e conceitos pré-determinados que não são refletidos por nós. Assim, a nossa consciência, ou seja, a nossa atitude diante do universo, vai se formatando até a nossa vida adulta. Uma consciência alienada se forma mesmo que o meu entendimento e o meu discurso venham a afirmar o contrário.
A pessoa que possui uma consciência alienada é aquela que se sente mais forte quando pode submeter-se a uma autoridade e ser parte dela, desde que esta seja exagerada, deificada e quando ao mesmo tempo a pessoa pode crescer pelo fato de se incorporar à autoridade. Sendo parte de algo grande (qualquer que seja), ele se torna grande. Se estivesse sozinho, se reduziria a nada. Nós podemos entender que determinada atitude esteja certa, mas não nos atrevemos a fazê-la, porque em nós já está introjetado o eu superior que me fiscaliza. Como diria Michel Foucault, o fiscalizado acaba se olhando com os olhos de quem o fiscaliza.
A consciência alienada faz com que tenhamos discursos humanistas e, ao mesmo tempo, atitudes extremamente capitalistas. Com a consciência alienada nos vemos como pessoas generosas e caridosas, mas na prática agimos como o sistema de consumo deseja, somos individualistas e consumistas. Compramos o livro que todos devem ler neste momento, usamos a roupa que todos usam, acreditamos que somos letrados por lermos a revista semanal, afirmamos que somos democráticos, tolerantes, somos pela paz e criticamos os políticos por serem corruptos.
Estas e outras formas de se relacionar com o nosso universo é a expressão de uma consciência alienada que não nos permite ser e agir de forma autêntica. Aliás, nós nem pensamos criticamente sobre o livro mais vendido, sobre a roupa que usamos; aceitamos como verdade o que a revista semanal nos transmite, não refletimos o que é na verdade uma democracia, o que significa tolerância, paz ou corrupção.
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