Política

Câmara discute alterações no Tático

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

A reportagem do JC que revelou o enfraquecimento da Força Tática (o ex-Tático 4), tropa de elite da Polícia Militar (PM) de Bauru, transformou-se no centro das discussões da sessão de ontem do Legislativo bauruense. Vários parlamentares repercutiram o assunto, que foi a manchete principal da edição do último domingo do jornal.

A matéria mostrou que a unidade policial está descaracterizada por uma questionada decisão do comando regional, que causou a substituição de 27 dos mais experientes e treinados policiais de choque, acostumados a enfrentar o considerado “mundo cão” da marginalidade, situações extremas de risco e detentores de conhecimentos aprofundados da “bandidagem”.

Os oficiais negam a descaracterização, mas admitem que houve um “esfriamento” das ações do Tático. Na ocasião, especulou-se que a causa das modificações teria sido a morte, no início de abril, do mecânico Jorge Luiz Lourenço - ele levou um tiro na cabeça - após confronto com a unidade policial, fato que poderia atrapalhar uma promoção do então comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPMI), com sede em Bauru, o tenente-coronel Pedro Batista Lamoso, que determinou as mudanças mas negou veementemente qualquer possibilidade de ligação com eventual prejuízo em sua carreira.

O vereador João Parreira (PSDB) foi o autor de um dos discursos mais incisivos sobre a questão. O tucano elogiou o JC, sustentando que o jornal estampou a realidade vivenciada pela corporação. “Cumprimento o JC pela coragem e isenção de uma reportagem como essa, que precisa ser séria e ter compromisso com a população e a verdade, e de forma tranqüila trouxe à população a realidade da estrutura da PM na cidade. Mas precisamos preservar a instituição e não podemos dizer que todo o trabalho é ruim. Temos uma boa PM, mas necessitamos de uma visão crítica. Não temos de tapar o sol com a peneira e só jogar flores”, frisou.

O parlamentar tucano defendeu, ainda, que o suposto “prejuízo” à carreira de Lamoso tem de ser investigada pelo alto comando da Polícia Militar. “A reportagem falou que a tropa está desmotivada, que o Tático foi reformulado e que 27 policiais foram trocados, mas o mais grave, e que precisa ser apurado pelo comando maior da PM, é a alegação da graduação do tenente-coronel Lamoso não ser prejudicada. Isso foi um militar que disse a uma jornalista, mas já ouvi isso e muitos vereadores também. Além disso, hoje as viaturas da PM não fazem mais as diligências e ficam estacionadas em lugares estratégicos. Também já ouvimos isso e quem é que não ouviu? Quem está dizendo isso são os ex-policiais do Tático”, enfatizou Parreira.

O peessedebista também cobrou que a PM se reorganize. “Estamos vivendo uma crise na instituição e é hora da PM dar uma parada e se reorganizar. Nossa fala endossando a reportagem não é só no sentido de desprestigiar a instituição, mas de dizer também que a cidade de Bauru precisa de policiais motivados e que as coisas ocorram conforme devidamente programado pela instituição. Não podemos aceitar se as coisas não estão bem e se fingem que estão bem”, advertiu o tucano.

Outro que não poupou críticas foi o policial da reserva Arildo Lima Júnior (PP), para quem a reestruturação do Tático foi feita em momento inadequado. “Tenho de concordar com a reportagem e sua abordagem. Realmente houve essa atitude por parte do comando para demonstrar à opinião pública que estava punindo exemplarmente após aquele momento da ocorrência com o motoqueiro que morreu em confronto com a Força Tática”, afirmou. E acrescentou:

“Se existia uma necessidade de reestruturação, em minha concepção não era o momento e antecipou-se de forma equivocada essa ação, trazendo reflexos muito ruins, não somente à Força Tática, mas também a todo contingente operacional da PM na cidade. E estamos vendo isso nas estatísticas, com o aumento dos furtos de residências e veículos, pois houve desmotivação e porque aquele que está na ponta da linha não está se sentindo respaldado e apoiado pelo comando. Primeiro se pune e depois se pergunta.”

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Reflexão

Vários vereadores consideraram que a reportagem do JC deve servir de reflexão ao comando da Polícia Militar. “Realmente, há necessidade de reflexão e a matéria vem para que o comando reflita. Não é culpa do comando local e não posso penalizá-lo, pois isso foi implementação de uma política equivocada do governo estadual na segurança do Estado. O comando de Bauru está sujeito às diretrizes do comando geral, mas precisamos refletir, pois temos excelentes oficiais e profissionais. Que a Polícia volte a se preocupar com as estatísticas favoráveis à coletividade e volte a fazer com que haja uma unidade de corpo e cooperação. Não se faz policiamento sozinho e um profissional depende do outro”, analisou Arildo Lima Júnior (PP).

Quem também seguiu igual linha de raciocínio é Alex Gasparini (PMDB), que criticou o governo estadual. “O governo estadual não tem política séria na área da segurança pública e não há estratégia de gestão pública. As corporações e os batalhões nas cidades estão se vendo sozinhos. A matéria deixa claro a desmotivação da corporação em querer ajudar a população justamente porque estão se sentindo sozinhos e sem respaldo. E quando desmotiva-se porque a viatura quebrou um eixo e não dá para rodar ou quando não há combustível para rodar, fica-se refém da sociedade e da criminalidade”, protestou o peemedebista. E completou: “

Importante é que comecemos a olhar para uma questão maior, pois isso é apenas a ponta de um iceberg. O que identificamos, após a denúncia do tráfico em lojas de conveniência, é que a PM não consegue ter um efetivo e competente atuação em suas cidades não por conta de falta de boa vontade e vontade de trabalhar pela população, mas porque o Estado não dá condições para que o faça.”

Já o pedetista Antonio Faria Neto (PDT) cobrou melhores salários aos policiais. “O governo estadual deveria refletir e remunerar melhor os policiais, pois sabemos que, por exemplo, há delegados de outros estados ganhando mais do que os de São Paulo. A Polícia precisa ser melhor remunerada e aparelhada para poder prestar seus serviços”, ressaltou.

Por fim, o verde Primo Mangialardo (PV) se disse “assustado” com as informações da matéria do JC. “A gente se assusta e fica surpreso de que estariam desmontando o Tático 4 que é uma área atuante da PM. Mas, em contrapartida, a polícia, como todas as instituições, deve se modernizar e se acomodar conforme as necessidades da sociedade. Se temos bons resultados hoje, ainda com a estrutura que foi desmontada e mesmo assim os resultados são bons, porque os índices de criminalidade em Bauru vêm caindo por conta de alguns fatores, não só porque existia o Tático 4, mas também porque existe trabalho de polícia comunitária em Bauru que temos de levar em consideração”, concluiu.

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