Entre um e outro anúncio das promoções do dia de uma loja de calcinhas e sutiãs, a voz ao microfone dispara: “Se você usar essa lingerie hoje, amanhã o marido vai te dar o DVD, a televisão de 29 polegadas e tudo mais que você pedir”.
Com bom humor, muita criatividade e capacidade de improviso, o locutor João Ricardo de Carvalho, de 25 anos, conquista clientes por onde quer que vá. “As pessoas olham, dão risada e acabam parando para olhar os produtos da loja”, conta.
Foi assim, brincando com os clientes e provocando risos com suas frases inusitadas que Ricardo, também conhecido como Toddynho, se transformou um dos profissionais mais requisitados na área. “Gosto de fazer piadas e imitar personagens de desenhos animados. É uma locução comercial diferente do que se costumava fazer até há algum tempo”, observa.
Sua descontração acabou atraindo muitos donos de estabelecimentos comerciais e hoje Ricardo tem uma agenda bastante disputada. As lojas o contratam por três a quatro dias de serviço, em média, mas dificilmente ele consegue 24 horas seguidas de descanso.
Em curtos espaços de tempo, ele se envereda pelos mais diferentes perfis de estabelecimentos, desde óticas mais requintadas até lojas populares de móveis e confecções. E é esse dinamismo que o obriga a estar com a capacidade de improvisação sempre afiada, na busca por novas formas de conquistar a clientela. “É sempre um novo desafio. Além de estar o tempo todo renovando as idéias, é preciso sensibilidade para identificar o perfil da loja”, resume.
A correria do dia-a-dia só cede espaço para o jiu-jitsu, sua segunda paixão e a válvula de escape para aliviar a carga excessiva de trabalho. “Não consigo ficar sem treinar. Pratico sempre que tenho um tempinho. Meu trabalho exige uma dose alta de concentração, então o esporte é uma forma de descarregar essa tensão”, conta.
Começo
Mesmo com todo o sucesso alcançado, a carreira profissional de Ricardo só começou mesmo há cinco anos, quando teve a oportunidade de trabalhar como locutor de bingo. “Eu sempre tive um jeito brincalhão, mas isso acabou me prejudicando dentro desse ambiente mais formal das casas de bingo e acabei sendo dispensado”, relata.
Naquela época, ele ainda não tinha microfone próprio e precisava alugar o equipamento para poder trabalhar, o que consumia cerca de 60% de sua renda mensal. “Ao ver minha dificuldade, meu avô me deu de presente o meu primeiro equipamento. Ele acreditou no meu talento e foi quando eu comecei a me destacar mais”, lembra, emocionado.
Com o incentivo, decidiu aprimorar seu talento freqüentando o curso técnico em radialismo oferecido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). Além do embasamento teórico que adquiriu, Ricardo contou - e conta até hoje - com a ajuda de amigos e a orientação de locutores veteranos.
No entanto, o grande mérito do seu sucesso é mesmo sua força de vontade. “Já fiz coisas loucas por essa paixão que tenho pela locução”, recorda-se. “Já andei quilômetros a pé para fazer gravações de propagandas em estúdios. Já fiquei em casa, sozinho, falando por horas com o canto da parede tentando ouvir o retorno da minha voz, em uma época em que não tinha equipamento de gravação para corrigir meus erros”, lembra Ricardo, com os olhos cheios d’água.
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Na festa, o padre
Apesar de apaixonado pelo trabalho que realiza atualmente, o grande sonho de Ricardo é construir uma carreira sólida como locutor de rádio. Para isso, ele pretende mudar-se para a cidade de São Paulo daqui a dois anos, onde espera conquistar seu espaço.
Nascido em Bauru e morador do Parque dos Sabiás, Ricardo conta que desde pequeno era aficcionado pelas vozes que ouvia no rádio, o que o motivava a tentar imitar a fala impostada dos locutores. “Além disso, nas festas juninas da escola eu sempre era o padre, porque assim poderia usar o microfone. Gosto mesmo é de falar, não importa onde, quando e nem para quem”, diz.