Regional

Ousadia de quadrilha revela insegurança

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 6 min

Dois Córregos - Uma quadrilha especializada em roubo de maquinário agrícola está levando insegurança às propriedades rurais de Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru). “A gente está com muito medo porque eles estão vindo com muito freqüência. Esse final de semana tornou ir lá uma moto. Só que a moto não chega até a propriedade. Acho que fica marcando o lugar”, explica uma vítima, que não quer ser identificada.

O que surpreende é a frieza com que agem os ladrões. Ficam horas no local do roubo e mantêm caseiros e familiares sobre a mira de armas.

As vítimas consultadas pelo JC demonstraram nenhuma preocupação com o prejuízo financeiro, que existe mas é remediado pelos seguros das máquinas. O que causa incerteza nas pessoas é a ousadia e liberdade com que homens fortemente armados promovem uma série de roubos, colocando em risco de morte famílias desprotegidas em propriedades rurais.

A trajetória de crimes neste ano revela a falta de segurança nas áreas rurais, que ficam à mercê da ação do crime organizado. As vítimas aceitaram relatar os roubos desde que suas identidades fossem mantidas no anonimato. Esse comportamento reflete a dúvida de, no futuro, topar com o bando de ladrões.

O grande trunfo deles é a violência psicológica imposta às pessoas aprisionadas. Antes de irem embora, geralmente próximo do amanhecer, deixam instruções ameaçadoras. “Não saiam daqui de dentro enquanto não clarear o dia, senão vocês vão morrer”, relata uma das vítimas dos criminosos.

Após uma madrugada inteira sobre a mira de armas e sem saber com exatidão o que poderia acontecer a qualquer momento, vê-los indo embora é um alívio para os reféns e não compensa arriscar nada. Assim, caseiros não contrariam as ordens e esperam a luz do sol para voltar a respirar com tranqüilidade.

Até agora, os criminosos não fizeram sequer um disparo. Também não tiveram dificuldade para transitar na microrregião de Jaú. Porém, deixaram rastros, que agora a polícia busca identificar. Como não existe o crime completamente perfeito, pode-se ter uma pista que leve à quadrilha.

Em uma das propriedades recentemente roubada, um dos dois tratores levados foi localizado. A máquina parou na manutenção e daí foi identificada como roubada. Uma das vítimas conta ter ouvido que o trator foi localizado no Mato Grosso. Ela, que perdeu uma máquina, está convicta de que seu equipamento teve o mesmo destino. “Quando roubou de um amigo nosso, que já faz oito a dez meses, também está no Mato Grosso, porque descobriram ele lá”.

O prejuízo já soma pelo menos R$ 1 milhão. Só de uma propriedade de produção de macadâmia, a quadrilha levou quatro tratores da marca New Holland, avaliados em aproximadamente R$ 50 mil cada um, conforme o delegado titular da cidade José Carlos Freitas de Cara.

Uma vítima vem colecionando na memória a trajetória de crimes do grupo. Esta pessoa se recorda que, no começo deste ano, três tratores foram roubados. Daí houve uma trégua. “Eles não voltaram mais e agora que foi em seqüência”, destaca. Em um período de um mês e meio, sete máquinas foram levadas de três propriedades.

Planejamento

O que vítimas e autoridades sabem com certeza é que a quadrilha planeja suas investidas para não correr risco. Quando agem, o maquinário almejado já está negociado com algum receptador. Tanto que um dos tratores localizado já estava na mão de outra pessoa.

Enquanto estão na propriedade, mantendo reféns, os ladrões aproveitam para retirar a numeração que identifica a máquina. “Usaram uma lixadeira e uma furadeira que até levaram embora”, salienta.

Inicialmente, o grupo faz um levantamento do movimento na propriedade e das vias de fuga próximas. “Eles ficam rodeando com a moto”, explica.

Essa sondagem é feita pela quadrilha usando moto que passa a circular nas proximidades. No dia de um dos crimes, 23 de setembro último, conta uma das vítimas do bando, eles chegaram à propriedade e não estouraram os cadeados das porteiras. Integrantes entraram, renderam o caseiro e pegaram as chaves. Um ficou com a filha e a esposa do caseiro. O funcionário foi levado até o barracão onde estavam três máquinas. Utilizaram lanternas para identificar o trator preferido, evitando assim chamar a atenção para a movimentação no galpão. “Eles preferem trator grande e novo”.

Das 20h até 3h30, o caseiro e sua família ficaram reféns dos ladrões. Em seguida, os criminosos carregaram o trator no caminhão, momento em que chegou um carro e uma moto à propriedade. “O caminhão veio por volta da meia-noite e meia”, relembra. Por volta da 3h30, chegou a condução que veio buscar o vigia das vítimas, que ficaram trancadas.

Só pela manhã, na chegada dos proprietários à fazenda, é que a família de caseiros saiu de sua moradia. “Eles levaram as chaves e a gente não achou”, destaca.

A última investida do grupo criminoso foi no dia 13 de outubro, de sábado para o domingo. O local escolhido foi a fazenda Palmeira, no bairro de Três Barras, em Dois Córregos. Conforme Cara, foram utilizados dois caminhões para o transporte de quatro máquinas. Além dos motoristas, pelo menos mais oito pessoas participaram diretamente da ação.

Eles chegaram por volta das 22h30, renderam os três moradores e carregaram os caminhões com o maquinário por volta da meia-noite e meia. Só deixaram a propriedade às 5h. Cara avalia que esse foi o tempo necessário para os tratores e a quadrilha ficarem em segurança. “Eles tinham muitas informações sobre a fazenda. As perguntas que fizeram eram bastante pertinentes. Tudo indica que fizeram levantamento completo”, ressalta Cara.

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Investigações avançam

Enquanto pratica o crime, o grupo faz ligações telefônicas. Uma vítima conta que sua propriedade se utiliza de comunicação pelo sistema GPS. “Eles faziam muitas ligações e usaram três operadoras”, conta.

Além da equipe de investigação da Delegacia de Dois Córregos, a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Jaú apura os roubos.

O titular da DIG, delegado Edmilson Marcos Bataier, não revela detalhes dessa investigação específica.

Ao JC, Bataier fez questão de relembrar que, no ano passado, foi identificada duas quadrilhas. Uma com ramificação em Goiás e que praticou roubo de máquina agrícola em Boracéia, microrregião de Jaú. Ele conta que, na época, pessoas foram identificadas e detidas. “Uma parte dessa quadrilha foi presa no ano passado e outros integrantes, que são do Estado de Goiás, estão com mandado de prisão decretado”, explica.

O outro grupo agiu em Dois Córregos. Bataier conta que um trator foi recuperado no Paraná e a quadrilha identificada.

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Como foi

• Motoqueiro sonda fazenda

• Caseiro é rendido

• Só no meio da madrugada, máquinas são carregadas

• Reféns são libertados antes do amanhecer

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