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A cada hora, uma pessoa é presa na região de Bauru

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

A cada hora, em média, uma pessoa é presa na região de Bauru, de acordo com levantamento do Departamento de Polícia Judiciária do Interior 4 (Deinter-4), que compreende 88 municípios da área central do Estado. Os dados são referentes aos nove primeiros meses deste ano, período em que foram realizadas 6.606 prisões (cerca de 24,2 ao dia) na área abrangida pelo órgão.

Se a tendência se mantiver pelos próximos meses, a região do Deinter-4 fechará 2007 com um “saldo” aproximado de 8.800 presos. É gente suficiente para encher 11 presídios do porte da Penitenciária 1 (P1) de Bauru, que tem capacidade para abrigar pouco mais de 800 detentos.

Embora nem todas essas pessoas permaneçam presas (grande parte acaba sendo liberada pela Justiça), as estatísticas não deixam de ser assustadoras, uma vez que ajudam a mostrar o quanto o crime se encontra difundido na sociedade.

Só em Bauru, entre janeiro e setembro deste ano, a Polícia Militar (PM) efetuou 698 prisões (média de 2,58 presos ao dia). Autoridades responsáveis pelo combate ao crime na cidade reconhecem que os dados são preocupantes.

Roberto de Mello Aníbal, diretor do Deinter-4, atua há mais de 30 anos na Polícia Civil. “Quando me tornei delegado, a polícia e as leis eram mais respeitadas pelos cidadãos. Hoje, parece que vivemos um período de degradação dos valores: a ‘Lei de Gérson’ impera”, diz ele, em referência à frase proferida pelo ex-meia da Seleção Brasileira em um comercial de cigarros dos anos 70 - “Gosto de levar vantagem em tudo”, teria dito o jogador.

Apesar de reconhecer que, hoje, a violência se encontra mais presente no dia-a-dia da sociedade, o comandante do 4.º Batalhão da PM do Interior (4.º BPMI), tenente-coronel José Humberto Nardo, acredita que a situação atual seja reflexo da expansão urbana de Bauru. “Conforme a cidade cresce, os problemas aumentam. Isso é natural”, pondera.

Desigualdade

A degradação de valores a que se refere o delegado Aníbal está relacionada a diversos fatores, dentre os quais a desigualdade social talvez seja o preponderante. “É complicado você querer que não exista violência em um país onde 1% da população concentra 50% da riqueza nacional”, aponta um policial militar bauruense que preferiu não identificar.

O caso do comerciante Carlos, 50 anos, morador do Parque Viaduto (zona oeste de Bauru) e que preferiu não fornecer o sobrenome, serve para ilustrar o problema: para faturar R$ 1.500,00 ao mês, ele precisa trabalhar de domingo a domingo, sem folga. “A rotina é puxada, mas, ao mesmo tempo, recompensadora. É gostoso você conseguir vencer as dificuldades do dia-a-dia”, acredita.

Carlos é pai de dois rapazes, mas, atualmente, apenas um deles colabora no estabelecimento; o outro está preso, em Marília. “Ele foi condenado como cúmplice em um triplo homicídio, quando tinha 27 anos”, conta o comerciante.

O crime ocorreu há quatro anos: dois jovens moradores do bairro assassinaram um homem (um suposto traficante de drogas) e duas mulheres a tiros. O filho de Carlos, que era amigo dos rapazes, teria ajudado na fuga dos criminosos.

Preso, o filho do comerciante acabou sendo condenado a 30 anos de prisão em regime fechado. Dois anos depois, graças a um novo julgamento, o jovem teve a pena reduzida para 15 anos. Segundo Carlos, o assassinato estaria relacionado à disputa entre duas quadrilhas do bairro pelo controle de uma “boca de fumo” (ponto-de-venda de entorpecentes).

“Meu filho era um rapaz honesto e trabalhador. Acho que ele foi ‘estragado’ pelas más companhias. Começou a se envolver com drogas e a ver os colegas ganhando dinheiro fácil - acabou se deixando levar pelo lado errado da vida...”, avalia Carlos.

De acordo com policiais militares ouvidos pela reportagem, drogas e o desejo de ganhar “dinheiro fácil” são os fatores que mais levam jovens a entrar para o mundo da violência. Tanto que os crimes contra o patrimônio são os mais comuns entre os registrados pelas duas polícias.

Só nos nove primeiros meses de 2007, segundo a PM, ocorreram 4.583 furtos e 775 roubos na cidade. De acordo com a Polícia Civil, a maioria dos crimes contra a propriedade se dá na área do 3.º Distrito Policial (DP), que abrange o Centro e a zona sul de Bauru.

Crimes contra a pessoa, por outro lado, ocorreriam com uma freqüência bem menor. Em 2007, por exemplo, aconteceram “apenas” 14 homicídios na cidade, de acordo com a PM. A quantidade representa menos da metade do número de assassinatos registrados no ano passado, que foi de 30.

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Educação

Educação e cidadania são as únicas ferramentas que podem combater o problema da criminalidade, acredita o psicólogo e professor da Universidade do Sagrado Coração (USC) Marcelo Mendes dos Santos. “A violência, tal como ela se mostra em nossa sociedade, tem causas estruturais: ela está relacionada ao desemprego, às desigualdades e ao preconceito”, explica o estudioso.

Para ele, a construção, por meio da educação, de uma cidadania que não seja contraditória à realidade das camadas carentes da população seria o primeiro passo para se combater a criminalidade. “Temos que encontrar um meio para tornar efetivos os direitos dos grupos menos favorecidos”, pensa.

Por outro lado, Mendes lembra que a questão da violência vai além dos limites de um determinado estrato social. “Podemos encontrar comportamentos e atos violentos tanto nas classes mais pobres quanto nas ricas. Acontece que os problemas ocorridos nos grupos mais abastados costumam ser mantidos ocultos, pois podem afetar a reputação dos indivíduos envolvidos”, explica.

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Prevenção

Um problema cuja solução está além da atuação eficaz das autoridades - dessa forma, policiais militares (PMs) ouvidos pela reportagem definem o combate à criminalidade. “A segurança pública é um dever do Estado, mas também é uma responsabilidade do cidadão”, explica o major Nélson Garcia, subcomandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPMI), em referência ao artigo 144 da Constituição Federal, que versa sobre o assunto.

Para Garcia, as pessoas comuns devem atuar na prevenção da violência. “Medidas simples podem ser bastante eficazes no combate à criminalidade”, diz. “Se, por exemplo, o dono de uma área baldia limpar e iluminar seu terreno, ele estará colaborando para tornar sua vizinhança mais segura, pois os bandidos não poderão usar aquele local como esconderijo”, salienta ele.

“Se todo mundo atuar na prevenção primária dos crimes, os índices de violência certamente irão cair”, afirma Garcia.

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