O câncer de próstata é o mais freqüente e segundo que mais mata entre os homens do Brasil. Sua incidência é de 30% em comparação às outras modalidades da doença, e o principal fator que mantém esse elevado índice é a falta de informação e o preconceito da população. Procurando reverter a situação, uma assistente social da ONG Instituto Bauru de Saúde resolveu iniciar, em 2003, um trabalho voluntário de conscientização batizado de Programa Móvel da Próstata (Provelta). Apesar de simples, o projeto deu tão certo que este ano acabou vencendo o prêmio Saúde, promovido pela revista de mesmo nome publicada pela editora Abril e recém-anunciado.
A campanha idealizada por Silmaire Cruz Tarantella e hoje tocada por Priscila Solcia Fiorillo, ambas assistentes sociais, concorreu com 637 trabalhos inscritos no concurso. O Provelta acabou vencendo na categoria Saúde do Homem, desbancando outros dois projetos finalistas, desenvolvidos por médicos da Santa Casa de São Paulo e da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).
Nos quatro anos de existência, através do Provelta, 40 casos de câncer de próstata em estado inicial foram detectados e mais de 1.900 bauruenses assistiram a palestras de conscientização e fizeram exames para detectar a doença, que atinge metade dos homens com mais de 50 anos. Os números impressionaram os especialistas integrantes da banca avaliadora.
Outro fator de destaque é que tudo é realizado de forma voluntária, sem auxílio de verbas governamentais. Munidas de cartazes informativos e vídeos, as assistentes sociais recebem em média 12 chamados mensais para realizarem palestras em empresas e entidades públicas. Durante a explanação, dão dicas de prevenção e orientação a respeito do câncer de próstata e tentam quebrar a barreira que impede os homens de realizar os simples exames que diagnosticam o mal.
Através de uma parceria com a prefeitura e um laboratório clínico da cidade, os casos suspeitos são encaminhados para a realização de exames e, em caso positivo, para o Serviço de Orientação e Prevenção do Câncer, no Hospital Manoel de Abreu. Ato simples que dá uma chance a mais de vida para aquelas pessoas que descobrem a doença no seu estado inicial, pois quando o tumor é diagnosticado e ainda se encontra apenas no tecido da próstata, a chance de cura varia entre 85% e 93%. Quando o estágio é mais avançado, esse índice cai para 50%. Já no caso da lesão ter atingido outros órgãos, não há cura.
Sozinha, Priscila Solcia Fiorillo ministra as palestras informativas e faz os encaminhamentos há mais de um ano. Ela substituiu a idealizadora do projeto, que precisou deixar a ONG devido a compromissos de trabalho. Fiorillo explica que a idéia surgiu pelo fato de existirem poucos projetos de conscientização focados no público masculino. “A maioria das campanhas hoje estão voltadas para as mulheres”, pondera.
A premiação deu mais ânimo à assistente social. A meta do Provelta agora é se expandir com o auxílio de verbas estatais. “Hoje fazemos tudo com recursos próprios e alguma ajuda de colaboradores. Já nos inscrevemos em programas disponibilizados pelo Ministério da Saúde e esperamos em breve ampliar a nossa atuação”, revela Solcia.
Para o urologista Aparecido Donizeti Agostinho, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, a campanha é extremamente importante. “Elas diminuem muito o preconceito por intermédio da conscientização”, afirma. “O homem tradicionalmente não tem a mesma preocupação da mulher com sua saúde. Talvez isso explique porque elas têm índice de longevidade maior que eles”, completa.
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A doença
O câncer de próstata atinge a área periférica do órgão responsável por produzir elementos que compõem o sêmen – líquido responsável em manter o espermatozóide saudável para chegar até o óvulo a ser fecundado. A lesão faz o órgão aumentar de tamanho e também causa nódulos.
Quando a doença é recente, não há nenhum sintoma físico que possa denunciá-lo. As duas maneiras para se fazer o diagnóstico são o exame de toque retal (para avaliar a consistência do órgão) e o teste sangüíneo PSA (capaz de indicar a presença da doença).
Médicos especialistas recomendam que os homens a partir dos 50 anos, sem casos da doença na família, comecem a fazer os exames anualmente. Já quando existem pessoas próximas que já foram vitimadas pelo câncer de próstata, os testes devem ser iniciados aos 40 anos. “Quando o paciente tem um parente próximo com a doença, a chance de desenvolvimento (do mesmo mal) aumenta 2,2 vezes. No caso de existirem três, o índice se eleva para 10”, revela Aparecido Donizeti Agostinho, urologista e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.
Como já foi dito, o diagnóstico precoce é importante para que o tumor seja retirado antes de atingir outros órgãos. De acordo com o especialista, cirurgias feitas em pacientes com até 65 anos de idade têm poucas chances de dar errado. “Em pessoas com idade acima disso deve ser levado em consideração a localização do tumor e o comprometimento de outros tecidos”, explica. “Caso não seja possível fazer a cirurgia, o paciente é tratado com hormônios e rádio ou quimioterapia”, completa.
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Pronto para cirurgia
O aposentado Orlando Doro, de 75 anos, é o típico exemplo do que ocorre com a maioria dos doentes da próstata. Ele demorou 25 anos para realizar os exames que indicam a presença da doença. “Fiz há seis meses e descobri que já estava em estado crítico”, conta.
Doro só fez o exame depois da insistência da filha, enfermeira, desconfiada após ouvir do pai a revelação de alguns sintomas que indicam a doença. Desde a descoberta, ele faz tratamento e agora se prepara para ser operado. “Se tivesse feito os exames mais cedo talvez não precisaria estar passando por isso”, pondera o senhor, que marcará a cirurgia no próximo mês.
O aposentado não recomenda que outros homens sigam os mesmos passos dados por ele. “O homem é muito machista e por causa disso acaba se prejudicando”, afirma. “Todos devem fazer os exames e se prevenir para não passar pelo que eu estou passando”, completa.