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A feira livre


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Pronto meu livro “Falcão/Independência: nossa gente e nossa história”, escolhi a feira livre da rua Carlos de Campos para lançá-lo numa manhã de autógrafos, em pleno dezembro, preocupado somente se haveria chuva ou sol no dia aprazado. Houve sol, muito sol.

Sérgio Losnak, secretário municipal de Cultura, instalou uma bela barraca, onde nós nos alojamos e esperamos os leitores. Para dar animação no evento, foi convidado o senhor José do Teclado, cego, que vive de música entoada nas feiras livres de Bauru. Ele vive disso.

Foi um fato inusitado. Será que alguém teve anteriormente a idéia de utilizar a feira livre, onde temos frutas e legumes em abundância, para divulgar uma obra literária? Creio que não. Fui, provavelmente, o precursor.

Confesso que sou “freguês de caderneta” daquela feira, na minha Vila querida. Freqüento também a da rua Gustavo Maciel, bem mais ampla, que em seu término tem a “feira do rolo”, provavelmente inspirada no “mercado de pulgas” parisiense. Nesse setor tudo acontece e está disponível à aquisição.

Lembra Rachel de Queiroz, ao comentar as feiras livres do Rio de Janeiro, que “todo mundo quer acabar com as feiras livres, todos reclamamos contra a falta de higiene, o barulho, o transtorno no tráfego, a característica senão medieval, pelo menos colonial desse tipo de mercado. E, entretanto, as feiras livres resistem a todos os ataques, a todas as promessas dos governantes – tão fortes como o jogo de bicho.”

Qual seria o mistério de se manter essa instituição algumas vezes centenária?

A própria escritora cearense responde: ”E, porque, talvez, a feira livre represente um dos mais seguros sintomas de que o homem metropolitano se considere de fato um exilado; toda vez que pode , procura fugir à civilização e ao progresso, aos triunfos técnicos da cidade grande, e se atira com delícias à irregularidade, à pouca higiene, ... e à vontade da vida no interior. Pois dispondo desses maravilhosos supermercados iluminados à luz fria, com câmaras de refrigeração, e todas as garantias em matéria de enlatamento e empacotamento – o citadino desdenha tais primores e corre para as feiras livres, para as ruas sujas de cascas de banana, ... as galinhas vivas em jacás, os ovos sem carimbo, ... os maços de couve que toda gente apalpa, as vagens que qualquer um pode quebrar no dedo. A feira livre representa um atraso de 200 anos na arte de comerciar com gêneros – e é por isso justamente que agrada nosso coração”.

Vou além: é o local de ponto de encontro com o nosso passado, quando cruzamos com pessoas que foram amigas na nossa juventude e hoje são avós com netos no colo. Quanta gente esquecida na nossa mente do passado é captada num rápido relance, quando com ela cruzamos na feira casualmente? E como é gratificante esse flagrante. E foi nesse ambiente que lancei o meu livro, muito concorrido por sinal. E havia os incrédulos sobre o sucesso do lançamento. Eles não sabiam, talvez, da força da feira livre. Que digam os que candidatos, nos pleitos que se sucedem, assíduos visitantes nos tempos de eleições, ali pleiteando votos. Sábado próximo, se tudo correr bem, estarei novamente nela, comprando as frutas e legumes para a semana entrante.

O autor, Irineu Azevedo Bastos, é colaborador de Opinião

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