Um avião é definido por seus projetistas como uma equação que voa. Isto porque tudo nele tem de ser pensado, calculado e projetado criteriosamente, senão as leis da física não serão obedecidas e ele não voará bem. Poderá ficar instável, não responderá aos comandos ou simplesmente não terá sustentação. E como lá em cima não tem acostamento em caso de pane...
Já um carro tem mais liberdade no quesito distribuição de peso. Claro que o ideal seria ter 25% da carga sobre cada roda, como em um carro de rallye, por exemplo, de forma que se torne o mais equilibrado e estável possível. Mas esta é uma aplicação específica que na prática, no uso diário, quase nunca atingida. Os carros de rua que mais se aproximam desta distribuição ideal são os Subaru, daí seu excelente desempenho em curvas.
Percebe-se nitidamente a diferença de comportamento de nosso carro quando andamos sozinhos ou com carga máxima. Além, é claro, de ficar bem mais pesadão quando carregado, tende a desgarrar de traseira, inclina mais em curvas (pois tem maior massa e isto aumenta o efeito centrífugo) e fica inclinado para trás, com a traseira mais baixa e a sensação de direção mais leve. Isto tudo muda o comportamento dinâmico do veículo, afetando principalmente a frenagem. Dinamicamente falando, podemos controlar um carro desequilibrado facilmente, corrigindo no volante de direção. Percebemos que um carro carregado mais de um lado do que outro tende a puxar a direção para aquele lado mais pesado, como uma picape com carregada com uma carga pesada apenas no lado direito da caçamba, por exemplo. O veículo anda puxando para a direita e esta tendência deverá ser corrigida no volante, gerando arrasto nos pneus, desgaste no sistema de direção e cansaço no motorista. O correto seria colocar a carga sempre que possível bem posicionada na caçamba, alinhada ao seu eixo longitudinal de forma a distribuir seu peso igualmente em relação às laterais e, de preferência, sobre o eixo traseiro ou entre eixos, nunca atrás do eixo traseiro.
Em um automóvel comum, como não foi projetado para transportar muito peso, deve-se tomar certos cuidados. Antes de tudo, respeitar o limite de carga do veículo, sempre. Tem gente que aproveita o bom porta-malas do seu carro e o enche de areia ou pedra para sua reforma em casa... O porta-malas não foi feito para isso! Não suporta todo este peso e não tem como retirar adequadamente o produto de dentro, muito menos como limpar a sujeira que o cara fez... O problema é que muita gente confunde a capacidade de carga em peso com a capacidade volumétrica. As coisas têm densidade diferente, portanto pesos e volumes distintos. Um porta-malas com 500 litros de capacidade suporta cerca de 200 quilos, por exemplo, e isto é bastante peso para bagagem normal de viagem de uma família. Mas se quiser aproveitar a capacidade volumétrica do porta-malas e levar 500 litros de água mineral, isto pesará mais de 500 quilos com a embalagem, ultrapassando o limite de carga do veículo. Tem que ser algo racional e não é por que tem espaço que se vai carregando de tudo no carro. O mesmo se dá com a distribuição de pessoas dentro do habitáculo. Se o motorista é grandão e a esposa é magrinha, coloque os passageiros no banco de trás na posição inversa de peso, ou seja, os mais pesados atrás da esposa e os mais levinhos atrás do motorista, para equilibrar melhor a distribuição lateral de peso. Mas o que ocorre normalmente é que se abrem as portas do carro e todo mundo entra conforme sua ordem de chegada ou preferência, já que ninguém toma este cuidado em orientar o posicionamento ideal para as pessoas se sentarem. Vale lembrar que em curtos trajetos isto não influencia muito, mas em viagens longas sim. Se estiver puxando um reboque, deve-se atentar muito para a distribuição de peso, com a carga sempre que possível o mais centrada possível dentro da caçamba. Se o reboque for bem projetado, deverá ter seu eixo posicionado ligeiramente para trás da metade da caçamba, de forma que o centro de gravidade fique localizado entre o eixo e o engate para permitir maior equilíbrio. Se a carga for colocada na parte traseira da caçamba, logo atrás do eixo, o reboque terá comportamento dinâmico instável e haverá tendência de soltar do engate. O correto posicionamento da carga sempre vem no sentido de maior segurança dinâmica.
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.