De acordo com o último censo, a taxa da população com menos de 15 anos é de 29%, isto é, mais de 50 milhões de crianças e adolescentes no Brasil. Então, pergunta-se: quais os problemas mentais que atingem essa população e quais políticas de saúde mental existem para essa demanda? Para uma população como a de Barra Bonita e Igaraçu, de 63.000 habitantes, existem 18.270 crianças e adolescentes menores de 15 anos.
As professoras de psiquiatria da Universidade Federal Paulista, Isabel Bordin e Cristina de Paula, fizeram pesquisas na população de 6 a 14 anos em escolas de primeiro grau de várias cidades do Brasil com questionários padronizados e publicaram seus resultados em periódicos consagrados. As taxas de prevalência obtidas com esses diagnósticos variam de 7% a 12% - logo, na população da Barra e Igaraçu, tem-se de 1.278 a 2.320 casos de transtornos mentais infantis, casos clínicos e limítrofes nas escolas.
Os problemas mais encontrados são transtornos de ansiedade de separação e transtornos de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e vem-se observando estes em ambulatórios e consultórios, através de queixas de dificuldades escolares. A ansiedade de separação aparece na idade de início das atividades escolares, quando a criança sai de casa e separa-se dos pais para começar a viver em um grupo organizado na pré-escola e escola. A criança apresenta ansiedade, preocupações excessivas, insônia, inquietação e queixas somáticas, principalmente gástricas e intestinais, e podem até ter episódios de pânico.
As crianças com TDAH são hiperativas, impulsivas e têm dificuldade de manter atenção numa atividade ou tarefa. Os fatores de riscos são genéticos: pais com transtornos mentais, dificuldades conjugais dos pais, morte de um dos pais, separação dos pais, comunidades desorganizadas e escolas inadequadas. O efeito cumulativo de vários fatores é mais determinante do que um fator de estresse isolado, independente de sua magnitude.
Sabe-se que crianças com problemas podem “internalizá-los”, isto é, tornando-se depressivas ou ansiosas, ou por outro lado, “externalizá-los”, tendo transtornos de conduta: agressividade, dificuldades de seguir regras e alterações emocionais ou de comportamento individual ou socializado. O mais preocupante é que casos muito graves desses dois transtornos e outros abandonaram as escolas e não aparecem nessas pesquisas, subdimensionando os problemas que realmente existem e são maiores do que é mostrado nestas pesquisas, tal como o retardo mental e o autismo.
Existem tratamentos para ansiedade de separação com antidepressivos ansiolíticos e tratamento para TDAH com medicações que melhoram a atenção e o controle do comportamento. Estudos que observaram crianças diagnosticadas tratadas e não tratadas até a idade adulta nos Estados Unidos da América demonstram que crianças com TDAH não tratadas, quando adultas têm menos escolaridade, mais chances de caírem no desemprego e na marginalidade e tornarem-se drogadidas com mais freqüência, enquanto, que as tratadas atingem maior escolaridade, entram mais em cursos superiores, têm mais empregabilidade e menos risco de drogadição.
Existe falta de residências médicas para especialização em psiquiatria infantil no Brasil e os Centros de Atenção Psico-sociais Infantis (CAPSis), especializados em psiquiatria infantil, que somente atendem crianças e adolescentes, são permitidos somente em cidades de grande porte como Bauru, onde existe um CAPSi e não, em cidades de menor porte como Barra Bonita e Igaraçu. A preocupação torna-se maior, sabendo que crianças com transtornos mentais não tratados serão adultos com problemas, cujos filhos serão criados em condições mais desfavoráveis ainda.
A falta de profissionais (principalmente psiquiatras infantis) e serviços estruturados para essa enorme demanda da população infantil com transtornos mentais persistirá por muitas décadas e deverá chamar mais a atenção de políticos, educadores e profissionais da saúde geral e mental para que algo seja feito. Algo que deve construir um futuro melhor para crianças e adolescentes brasileiros que serão os adultos do futuro. Se estes se tornarem mais saudáveis e produtivos poderão fazer um Brasil melhor. Os adultos do presente cumprirão um dever com as futuras gerações.
O autor, Carlos Manuel Cristóvão, é psiquiatra - CRM 8861