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Pesquisa: leite cru esconde antibiótico

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

Botucatu - Não bastassem soda cáustica e água oxigenada adicionadas ao leite por cooperativas e a presença de coliformes fecais, o consumidor também precisa estar atento à presença de resíduos de antibióticos no leite cru. Para o pesquisador e médico veterinário Luís Augusto Nero, da Universidade Federal de Viçosa (MG), não foi surpresa o problema de adulteração detectado no leite que chega à mesa do brasileiro.

Em 2003, Nero preparava seu doutorado e analisou o leite de 50 produtores da microrregião de Botucatu (100 quilômetros de Bauru) e de outras três regiões do Brasil. Conforme o pesquisador, 8% das amostras apresentaram índice acima do aceitável de contaminação por resíduos antibióticos. “A qualidade do leite produzido no Brasil não é das melhores, tanto do produto bruto (cru) quanto do produto beneficiado. Sempre é divulgado e está disponível para qualquer órgão oficial utilizar esses dados”, explica.

Segundo Nero, no Brasil o leite tem grande concentração de bactérias. O problema varia em cada região e não chega a afetar a saúde do consumidor, porém, em um curto espaço de tempo o leite exposto à temperatura ambiente fica inadequado para o consumo. “Os processos industriais de pasteurização garantem a ausência de microorganismos que vão causar enfermidade no consumidor.”

Nero alerta para a falta de fiscais em número suficiente para garantir uma fiscalização e que garanta o cumprimento da legislação já existente. Ele pondera que não se trata de negligência do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Seria falta de profissionais.

O médico veterinário José Paes de Almeida Nogueira Pinto, professor da disciplina de inspeção sanitária de alimentos de origem animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp de Botucatu, avalia que a presença de resíduos de antibiótico no leite cru é grave. Ele alerta para o uso indiscriminado de medicamentos para animais por parte de produtores que, muitas vezes, não têm acompanhamento especializado. Ele ressalta que o Ministério da Agricultura tem um programa para a detecção do resíduo ainda na entrada da matéria-prima para pasteurização. “A gente recomenda que as pessoas não consumam leite cru. Além dele estar sujeito a uma série de fraudes, a presença de resíduo antibiótico em leite cru é muito maior do que no leite entregue para o consumidor”, acrescenta.

Uma veterinária responsável por um laticínio de Pardinho não quis comentar, ao JC, a questão da qualidade do leite. Sabe-se que esta indústria produz diariamente 100 mil litros. A precaução da representante da empresa reflete o momento bastante desfavorável para o setor produtivo.

Nero também vê com otimismo o fato do País colocar em prática uma moderna legislação que favorece a qualidade do produto. Ele avalia que a lei (Instrução Normativa 51, de setembro de 2002) sinaliza melhora gradativa do produto. Ele explica que a lei prevê o cumprimento de metas para melhorar ao longo do tempo a qualidade do produto. Antes dessa normativa, o pesquisador comenta que alguns tipos de leite produzidos não tinham padrão de qualidade na matéria-prima. “No antigo leite cru tipo C você não encontra essa denominação”, lembra. Atingidas todas as metas, a legislação prevê que todos os leites no mercado tenham qualidade semelhante.

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