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Mortos são reverenciados com oferendas no Cristo Rei

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

A previsão era de céu nublado e pancadas de chuva a qualquer momento no feriado de Finados. Mas o que se viu ontem foi mais um dia quente e sem chuva antes do anoitecer. O tempo ajudou quem pretendia visitar os cemitérios da cidade. O movimento foi intenso de manhã e no fim da tarde, quando o sol não estava tão forte. No Cemitério Cristo Rei, no Parque Primavera, o culto aos antepassados feito por adeptos do Templo Escola de Umbanda Sagrada chamou a atenção de quem estava no local.

Reunidos diante do Grande Cruzeiro, considerado um terreno sagrado e casa do pai Omulu, orixá que rege a morte, na passagem do plano material para o espiritual, eles fizeram oferendas, orações e pedidos. Vestidos de branco e ao som do batuque, ofereceram bolo de fubá, vinho tinto, canjica, flores de várias espécies e muita pipoca com azeite de dendê.

De acordo com o sacerdote Rodrigo Queiroz, a pipoca representa a transcendência. É a transformação do estado morto (milho) para o vivo (pipoca). E o azeite representa a energia com poderes para consumir a força nociva. Segundo ele, cada oferenda feita tem uma representação e todas têm como objetivo reverenciar os antepassados. É uma forma dos seguidores dizerem “muito obrigado”, porque sem eles (os mortos) não haveriam os vivos de hoje.

O ritual demorou cerca de uma hora e meia e foi acompanhado por dezenas de pessoas. Esse foi o terceiro ano seguido que eles prestam essa homenagem diante do cruzeiro no Cemitério Cristo Rei.

Do lado de fora, a vendedora Sueli Leme fazia reverências aos consumidores. Até as 12h, ela já havia vendido cerca de 130 vasos de flores. A média é a mesma de anos anteriores, mas o resultado deixou-a muito satisfeita porque teve de aumentar o preço este ano e, segundo ela, as compras sempre caem quando isso acontece.

Com pontos também nos cemitérios do Ipê, da Saudade, São Benedito e Redentor, ela não conseguia disfarçar a satisfação com o ritmo das vendas. Somente no Cemitério da Saudade, a previsão era de vender 700 vasos.

Os vendedores Alex Renan Ferreira, 16 anos, e Fátima Clérigo, 51 anos, que também têm pontos no Cemitério da Saudade estavam igualmente satisfeitos.

O adolescente demonstrava alegria ainda maior porque era a primeira vez que estava ali vendendo flores. Surpreso com a procura, ele disse que teve de pedir ajuda para um amigo para poder atender a todos os clientes. Até o início da tarde, ele havia vendido cerca de 400 vasos de crisântemos e margarida, a maioria nas cores branca ou vermelha. “A venda está ótima”, vibrava.

Na barraca ao lado, Fátima comemorava a venda dos, até então, 400 maços de velas. Até o fim do dia, ela esperava aumentar ainda mais o faturamento. No entanto, a surpresa da vez ficou por conta da venda das flores artificiais. Segundo ela, superou as expectativas mais otimistas.

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Milagres

Todo Finados é a mesma coisa. Os cemitérios ficam floridos. É até bonito ver a variedade de cores que toma conta do lugar. Quase todos os túmulos tem pelo menos um vaso de flor. Alguns, no entanto, ficam pequenos para receber tantas homenagens.

No Cemitério da Saudade, existem dois que são imbatíveis. Um deles é o da menina Mara Lucia Vieira, morta aos 9 anos após ser estuprada numa residência na rua Professor José Ranieri, no Centro. O crime aconteceu no dia 15 de novembro de 1970 e até hoje não foi desvendado.

Admiradores garantem que ela faz milagres. Ontem, Vivian Clair Santos Oliveira, 17 anos, acendia algumas velas para a menina em forma de agradecimento por uma graça recebida. Segundo a mãe, Cleide dos Santos, 38 anos, a filha foi curada de uma anemia graças à intervenção de Mara Lucia.

O outro túmulo campeão de visitas é o da parteira Maria Nunes, morta em 1917, e o da filha dela, a prostituta Josefina Nunes, morta em 1922. Segundo o motorista Wilson Mansueto, 55 anos, que estava ontem diante do jazigo de Mara Nunes, muitas mulheres a procuram para pedir um marido.

Ele conta que a própria esposa tinha o costume de sair da empresa onde trabalhava e ir até o túmulo de Mara Nunes durante o horário de almoço para acender vela, rezar e pedir para casar. “Ela tinha uns 17 anos. E como toda mulher jovem daquela época, ela também sonhava em casar”, comenta. “Assim como ela, muitas outras mulheres também vinham aqui para fazer o mesmo pedido”, afirma.

É difícil saber se as orações ajudaram, mas em 1974, depois de dois anos de visitas quase diárias ao cemitério, Maria Aparecida casou. “Ficamos mais de 30 anos juntos”, informa Mansueto, que estava no cemitério para visitar a esposa, morta há cerca de um mês.

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