Li no “Les Parisiens” - porque estava em Paris e jornal é uma das poucas coisas que um brasileiro assalariado pode comprar por lá, além de queijo e vinho - um artigo onde o autor tratava de problemas da mídia francesa. A ênfase era a defesa de um colega que se negara a cobrir a vitória de Nicolas Sarkozy à presidência da França, porque seu coração patriota estava com a socialista Ségolène Royal. Ségo é defensora intransigente, entre outras coisas mais importantes, do reconhecimento oficial do queijo chabichou - produto caipira e sem a estirpe de um camembert. Razão tinha De Gaulle quando disse que era muito difícil governar um país com 450 tipos de queijos. O colega invocou, para pedir indenização, a “cláusula de consciência”, presente na lei que regulamentou a profissão e permite que o jornalista possa se negar a escrever sobre um assunto que violente os seus valores, ou por motivos ideológicos, ou políticos, ou religiosos ou, simplesmente, “pour épater le bourgeois”. Essa expressão corresponde a nossa velha “conversa mole para boi dormir”.
No Brasil não temos essa “cláusula de consciência”, embora a sua introdução na Lei de Imprensa seja tentada há mais de 15 anos. Na França o jornalista pode se demitir e receber indenização como se tivesse sido demitido sem justa causa, quando se sente prejudicado por uma mudança de linha editorial do veículo em que trabalha. É mais ou menos o que poderá fazer o político tupiniquim que se sentir um estranho no ninho no seu partido. Basta que a agremiação mude de orientação programática para justificar a troca de partido - segundo entendimento firmado pelo STF.
Desde 1935, todo francês que trabalhe regularmente na imprensa e que retire mais de 50 por cento da sua renda de trabalhos de cunho jornalístico, pode solicitar a carteira de identidade profissional. Mesmo sem diploma. Não tem direito o assessor de imprensa, que lá é tido como lobista ou relações públicas. No Brasil há mais profissionais da imprensa trabalhando fora de jornais, rádios e tevês. Quando não, o coleguinha está com a perna nas duas canoas. Ganha como assessor para escrever do assessorado em seu órgão de comunicação. Uma excrescência que o Código de Ética condena.
A grande mordomia “em França” (très chic) é o fato do jornalista não pagar imposto de renda. Segundo me explicaram, tudo começou no pós-guerra, quando os patrões não podiam arcar com um aumento de salários. Recorreram ao leão, que urrou fino e abriu mão da sua mordida anual. Desde então nenhum governante consegue acabar com a mordomia, graças ao “esprit-de-corps”. Um privilégio odioso que já tivemos no Brasil no tempo do Getúlio, para tapar a boca dos fazedores de notícias.
Nessa questão de “consciência” eu estou mais para Tom Wolfe. O ponto de partida de um jornalista é invadir a privacidade de alguém, fazer perguntas que não tem o direito de esperar que sejam respondidas. Outro dia Sarkozy arrancou o microfone em plena entrevista e saiu pisando duro quando a jornalista perguntou sobre sua crise conjugal. Ela cumpriu seu dever de perguntar o que o povo quer saber. A privacidade do chefe de Estado é relativa. O repórter está lá, de canequinha na mão, suplicante, esperando que venha a informação ou que alguma coisa aconteça. Nada a ver com “consciência”. O jornalista vai adaptando sua personalidade à situação, insinuando-se, servindo, fazendo o que for preciso, suportando insultos, abusos, até choques ocasionais na eterna busca da “história”. Esse comportamento chega perto do servilismo ou mesmo da mendicância. Tom Wolfe comparava o caderninho de anotações (hoje seria o gravadorzinho digital) a canequinha do mendigo à espera de alguma moeda derramada. Tlim! O que vale é a história dada. A negada, como a de Sarkozy, foi melhor que uma confissão dramática. Correu o mundo.
Além do mais, emprego não está fácil nem lá e nem cá. Acabou aquele negócio de “não estou contente e vou trabalhar noutro lugar”. Hoje o companheiro agarra o emprego mais que perereca na ribanceira do brejo. François Mayle, do Fórum das Sociedades dos Jornalistas, disse que os dois mil euros (uns R$ 5.200) pagos, em média lá na França, só dá para comer e olha lá. Ainda bem que a França oferece boas escolas públicas onde as crianças têm todo o material fornecido, almoçam, fazem a tarefa e voltam para casa de banho tomado. O atendimento à saúde funciona e é gratuita. Em Paris há disponíveis milhares de bicicletas públicas para idas e vindas, para quem quiser economizar e ajudar a diminuir o dióxido de carbono nas ruas da cidade. Aí sim, vale a consciência.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC