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Entrevista da semana: Rose Lopes: dedicação à comunidade

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 9 min

De assessora particular do ex-deputado estadual e ex-prefeito de Guarulhos Paschoal Thomeu, a líder comunitária. Essa foi a trajetória de Rosemary Lopes de Moura, 48 anos, que não revela sua formação para “não perder a simplicidade”.

Depois de 11 anos envolvida até o pescoço com a política em Guarulhos, ela decidiu largar tudo para se dedicar de corpo e alma às causas dos mais necessitados em Bauru, sua cidade natal.

Com o tempo, virou uma referência para os moradores da Vila Dutra e bairros vizinhos. Quando precisam de comida ou de atendimento médico, ao invés de recorrerem aos representantes do poder público vão bater à porta de Rose Lopes, como é mais conhecida.

A dedicação ao trabalho social é tanta que ela não hesitou em abrir as portas da própria casa para servir como uma espécie de quartel general para a distribuição de sopa a famílias carentes da Vila Dutra e de outros bairros. Para muitas dessas famílias, a sopa é o único alimento que conseguem pôr à mesa. São cerca de 100 litros de sopa, cinco dias por semana, que beneficiam cerca de 200 pessoas.

Além da distribuição de sopas, Rose está sempre envolvida em campanhas de Natal, na arrecadação de agasalhos, de roupas de bebê e ainda encontra tempo para participar do Conselho Municipal de Saúde, do Conselho Gestor do Pronto-Socorro, do Conselho Gestor da Vila Dutra, do Conselho Nacional de Educação e Saúde, vinculado ao Ministério da Saúde, e do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Oeste/Noroeste.

Acompanhe a seguir entrevista concedida por Rose Lopes ao Jornal da Cidade durante uma folga entre um compromisso e outro de cunho social.

Jornal da Cidade - De onde vem essa paixão de lutar pelo bem-estar das pessoas mais necessitadas?

Rosemary Lopes de Moura - Eu nasci numa família espírita. E a gente aprende desde cedo a praticar a caridade, que nós não vivemos sozinhos no mundo e que não devemos gostar só de nós, mas também das pessoas que vivem à nossa volta. Então, eu acho que meu princípio foi minha família. Meus pais ensinaram os filhos a dividir tudo em igualdade desde pequenos. Foi a partir daí que eu aprendi que nós temos que compartilhar tudo com a sociedade, nunca ser individualista. Isso faz parte do meu comportamento.

JC - Quando e onde você deu os primeiros passos nessa caminhada pelo social?

Rose - Quando eu tinha 23 anos, fui morar em Guarulhos. Naquela época, em 1988, o município passava por graves problemas sociais e políticos. A cidade chegou a sofrer intervenção. E eu fazia parte do grupo político do então prefeito Paschoal Thomeu. Eu era assessora de gabinete, mas como a primeira-dama viajava muito eu assumi também o serviço de assistência social da prefeitura. Fizemos um mapeamento da pobreza e ficamos abismados com o resultado. Descobrimos uma favela com 100 mil habitantes e nós tínhamos que penetrar nela, porque havia ali muita doença e outros problemas que não eram detectados. Começamos então a construir unidades de saúde, em parceria com as indústrias e o comércio.

JC - Você trabalhou por quanto tempo com Paschoal Thomeu (além de prefeito de Guarulhos, ele foi deputado estadual durante três mandatos. Morreu no ano passado com infecção hospitalar generalizada)?

Rose - Trabalhei 11 anos com ele. Trabalhei antes de ele se eleger prefeito. Eu caminhava com ele às 5h da manhã, durante dois anos, para que todo mundo o conhecesse.

JC - Você é formada em que?

Rose - Ah, eu não gostaria de falar. Não quero perder a simplicidade. Acho que não tem necessidade de falar do que eu já fiz na vida.

JC - Mas você deve ter aberto mão de alguma profissão para se dedicar ao trabalho social?

Rose - Quando eu voltei de Guarulhos, larguei tudo. Eu era funcionária concursada da prefeitura, assessora de gabinete, trabalhava na Secretaria do Interior, fui assessora particular do ‘seo’ Paschoal, eu tinha três secretárias, não andava em lugar nenhum sem segurança, até mesmo em casa tinha sempre proteção. Eu não vivia. Quando retornei a Bauru, eu estava num estresse tão grande que eu disse que não queria saber de mais nada daquilo. Eu queria ser eu. Fazer apenas o que tinha vontade. Eu era casada, não oficialmente, com Roberto Previdello Filho. Vendemos tudo o que tínhamos em Guarulhos e ele passou a me sustentar aqui. Um ano depois de termos voltado, meu marido morreu. Vivemos juntos durante 16 anos. Após a morte dele, passei um tempo sem saber o que fazer. Eu tinha um grupo de amigas que se reunia toda semana. E um dia, decidimos fazer um almoço de Natal. Isso foi em 1997, cerca de um mês após a morte do meu marido. No dia de Natal, nos juntamos e fizemos 35 kits de comida, com arroz à grega, macarronada, frango assado, refrigerante, pão, brinquedos e saímos cada uma sem destino para entregar. Depois nos encontramos para relatar o que havia acontecido e foi aquela choradeira porque encontramos pessoas que realmente precisavam. A partir daí começamos a fazer campanhas de agasalho, roupa de bebê, alimento. E este ano será o nosso décimo almoço de Natal.

JC - Você tem filhos?

Rose - Tenho três filhos com meu primeiro marido. Hoje, todos eles têm mais de 25 anos e são maravilhosos. Uma filha mora em São Paulo e os outros dois, uma filha e um filho, em Bauru. E tenho dois netos, William de 12 anos e Yasmim de 4.

JC - Com o Roberto você não teve filhos?

Rose - Não, não tive. Mas ele já tinha quatro, com mais os três meus já era o suficiente, ainda mais com eles na adolescência.

JC - Você tem pretensão de voltar para a política?

Rose - No momento não. Acho que onde eu estou hoje eu consigo ajudar mais do que se eu for ocupar um cargo político. Com amizades políticas sólidas, eu acho que consigo mais do que se eu for a política. Se eu fosse a política, estaria perdendo a noção da realidade. Talvez eu me perdesse na política. Sempre achei que eu tenho de estar a par da política, de bem com a política do momento, mas permanecer onde estou. Acho que aí sou mais útil.

JC - Hoje, você continua ligada a algum partido?

Rose - Sou peemedebista. Estou no partido há quase 30 anos. Subi muito em palanque junto com Ulisses Guimarães, fui delegada do partido durante 11 anos, participei de muitas convenções, muitos movimentos. Já tive uma participação bastante ativa na política.

JC - Nessa sua trajetória política e social, qual foi sua principal decepção e sua maior alegria?

Rose - Minha principal decepção é ver como o dinheiro da saúde é mal empregado e, por isso, não consegue cumprir seu papel para melhorar o atendimento. Circula muito dinheiro na saúde, mas ele é mal aproveitado. Ele não chega diretamente no público consumidor da saúde. Eu acompanho o Sistema Único de Saúde (SUS) desde o seu início. Na teoria, o sistema é bom, mas na prática nem tanto. Gasta-se uma fortuna para realizar encontros e depois paga uma mixaria por uma consulta médica. Não tem lógica. Agora, minha maior alegria é perceber que tenho credibilidade. Tanto junto àqueles que vão à minha casa em busca de comida quanto àqueles que deixam para mim um caminhão de alimentos porque sabem que vou dar um destino correto para aquilo. Acho que isso é muito difícil de conquistar na vida. Essa amizade que eu tenho entre as pessoas que têm para dar e com aquelas que precisam receber é que me faz uma pessoa feliz.

JC - Além de líder comunitária, você ocupa quais outras funções sociais?

Rose - Eu participo do Conselho Municipal de Saúde, do Conselho Gestor do Pronto-Socorro, do Conselho Gestor da Vila Dutra, do Conselho Nacional de Educação e Saúde, vinculado ao Ministério da Saúde, e faço parte do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Oeste/Noroeste.

JC - Quando e como surgiu a idéia da Casa da Sopa?

Rose - Em janeiro, ela vai completar cinco anos. Foi uma idéia do meu vizinho, Saturnino Ferreira Lima, que faleceu no mês passado. A gente sempre sentava na área de casa para conversar e ele contava da tristeza dele em ver que muitos moradores do bairro (Vila Dutra) estavam passando necessidades. Na época, eu tinha um fogão industrial e duas panelas que eu usava para os almoços de Natal. Então eu sugeri que usássemos essas coisas para fazer sopa para os moradores mais carentes. Ele topou e no dia seguinte saiu avisando as famílias a respeito da distribuição da sopa e eu fui atrás de arrecadar os ingredientes. No dia 7 de janeiro de 2003, 7h da manhã, nós estávamos fazendo a primeira sopa. Vieram oito famílias. No dia seguinte, tinham 12. No fim do primeiro mês, já tinham 40 famílias e foi crescendo. Hoje, são 100 litros de sopa todos os dias o que dá para atender cerca de 200 pessoas.

JC - E essas pessoas são todas da Vila Dutra?

Rose - Não. Quem vier leva, independentemente de onde seja. Nós temos um cadastro dos moradores aqui da região, formada pela Vila Dutra, Jardim Prudência, Santa Cândida, Leão XIII, Val de Palmas, mas se alguém vier de outros bairros é atendido. Tem um senhor que vem do Parque Santa Edwirges buscar sopa. Ele vem três vezes por semana e leva dois baldes pequenos com sopa que dá para dois dias. Ele vem a pé.

JC - Quando não está envolvida com os trabalhos sociais, o que você gosta de fazer para relaxar?

Rose - Eu vou para Piratininga. Gosto de ir ao clube para nadar, jogar snooker com meu pai, gosto muito de ler, de praticar esportes e fazer projetos de saúde. Às vezes, eu fico horas e horas sonhando com esses projetos.

JC - Com que freqüência você vai ao clube?

Rose - Normalmente, duas ou três vezes por semana. Quando acaba a distribuição da sopa, cada um vai para sua casa e vou para o clube.

JC - E o que você gosta de ler?

Rose - Livros. Eu devoro livros e dos mais diversos gêneros. Não tenho preferência. O livro sendo bom eu leio. Pode ser auto-ajuda, romance, qualquer um. Gosto muito dos livros do Paulo Coelho. Li todos, várias vezes.

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Perfil

Nome: Rosemary Lopes de Moura

Idade: 48 anos

Local de nascimento: Bauru

Marido: Roberto Previdello Filho (faleceu em 1997)

Filhos: Lilian (29 anos), Samantha (28 anos) e Lester (26 anos)

Hobby: Leitura

Livro de cabeceira: biografia de Akio Morita

Filme preferido: Sissi – A Imperatriz

Estilo musical predileto: MPB

Time do coração: Santos

Para quem daria nota 10: Minha mãe

Para quem daria nota 0: Adolf Hitler e George W. Bush

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