Letícia (nome fictício), 19 anos, estava com os pais e o irmão em um churrasco em sua casa quando ficou bêbada pela primeira vez. “Devia ter uns 14 anos. Estávamos conversando, jogando cartas e nos divertindo”, conta. Quando começou a cursar faculdade, virou hábito beber em festas e encontros com os amigos. Segundo pesquisadores, cerca de 50% dos jovens que bebem mais de duas vezes por semana podem tornar-se adultos alcoólatras.
Ela admite que ingere bebida alcoólica mais de duas vezes por semana, mas o que não sabe é que, além de prejudicar a saúde e os estudos com esta rotina, corre o risco de tornar-se dependente química.
Ontem, estudantes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) participaram do oitavo “Dia de alerta sobre o uso excessivo de álcool”, na cantina próxima à central de salas de aula. Juntos, eles brindaram com coquetéis sem álcool, coloridos e com gelo seco para decoração. Segundo o professor coordenador do evento, Raul Aragão Martins, a atitude de Letícia e de outros jovens que ingerem álcool mais de duas vezes por semana é preocupante. “Eles estão na categoria de pessoas que ‘bebem com risco’, pois a saúde e os estudos podem ficar prejudicados”, afirma.
O que mais assusta é que cerca de 50% desses jovens que bebem mais de duas vezes por semana podem se tornar adultos alcoólatras. “O que começou em uma brincadeira, pode virar um caso sério”, ressalta.
As mulheres precisam ter cuidados redobrados. “Elas têm metade da quantidade que os homens possuem de enzimas que degradam o álcool. Por isso, se beberem o mesmo tanto que os namorados, vão passar mal”, afirma. Além disso, tornam-se vítimas de possíveis abusos sexuais, alerta o professor.
Pesquisa
Pesquisa feita pelo sociólogo Murilo César, em 2001, mostrou que 12% dos jovens consomem bebida alcoólica mais de três vezes por semana. “Esse resultado é problemático porque estamos falando de jovens entre 17 e 19 anos que estão na faculdade”, afirma. Na opinião dele, o álcool nem sempre é tratado como uma droga pelos familiares, o que dificultaria o tratamento. “Tomar uma cervejinha é tido como um hábito cultural. Ninguém dá muita atenção ao álcool como faz com outras drogas”, diz o sociólogo.
Neste ano, os jovens que participaram do evento na Unesp também responderão a um questionário sobre ingestão de bebidas alcoólicas. Eles informarão, anonimamente, sobre a freqüência com que, por exemplo, não conseguiram se lembrar do que aconteceu na noite anterior por causa da bebida. Aqueles que marcarem mais de oito pontos já são considerados com ‘padrão de beber de risco’. O questionário pode ser retirado na Pró-Reitoria de Extensão Universitária.
Para aproveitar as festas sem correr o risco de ter problemas relacionados ao álcool, as mulheres devem tomar até sete doses por semana, mas não mais de duas doses por vez. Os homens podem tomar até 14 doses por semana, não mais do que três por vez. Uma dose de bebida equivale a 12 gramas de álcool, ou seja, uma taça de 140 ml de vinho, ou 40 ml de destilado ou 350 ml de cerveja.
Se beber e dirigir, o resultado pode ser fatal. Um copo de uísque, ou três garrafas de cerveja, para um homem de 70 quilos é o suficiente para aumentar o seu risco de acidente acima de 200 vezes.
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Na universidade
Segundo o vice-diretor da Faculdade de Engenharia (FE) da Unesp Jair Manfrinato, os professores têm o papel de ajudar na educação dos adolescentes, o que inclui a orientação sobre o consumo de bebidas alcoólicas. “Na faculdade, não estamos formando apenas profissionais. Também formamos cidadãos”, reforça.
A estudante de educação física Bárbara Fumes, 19 anos, afirma que bebe uma vez por semana, mas admite que vê jovens abusando do álcool nas festas. “Muitos bebem mais do que deveriam”, diz. Ela participou ontem do evento realizado ontem na Unesp e topou fazer uma brincadeira: tomou drinques sem álcool, mas estilizados com cores vibrantes e gelo seco.
O barman Mauro Teixeira, que ofereceu gratuitamente drinques sem álcool para os jovens ontem à tarde, pensa o contrário. “Muitas vezes, os jovens dizem que ficam ‘alegrinhos’, mas não beberam álcool. Eles gostam bastante do visual do drinque e topam diminuir a quantidade de álcool se a bebida for atraente”, garante.
Os médicos orientam a não ingerir álcool quem tem doenças hepáticas ou mental; toma medicamentos como antibióticos, analgésicos, calmantes ou pílulas para dormir; tem uma história pessoal ou familiar de problemas com bebida; está grávida, tentando engravidar ou amamentando; necessita estar alerta, vai praticar esportes, operar veículos ou trabalhar com equipamentos perigosos, ou que seja responsável pela segurança de outros.