São Paulo - Em meio a tantas denúncias de corrupção, a deficiente Ana Cristina Barbosa Conceição, 26 anos, deu um exemplo de honestidade no último dia 18. Moradora de Campinas (95 quilômetros de SP), onde é aluna da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e estagiária no Mercado Municipal, ela encontrou um pacote com R$ 4 mil no centro comercial da cidade e o devolveu ao dono.
Ana Cristina possui um tipo de deficiência intelectual e tem dificuldades de aprendizado e compreensão. No Mercadão, a jovem faz serviços gerais e ganha um salário mínimo. “Eu estava indo lavar o banheiro e vi um pacote no chão. Aí chamei minha monitora para entregá-lo a ela. Minha mãe me ensinou que, se eu encontrasse algo na rua, deveria devolver ao dono.”
Ana Cristina diz que entregou o embrulho fechado à monitora no seu trabalho e ficou surpresa ao saber do conteúdo. “Levei um susto quando me falaram que a quantia de dinheiro era grande.”
Após falar com os emissores dos cheques, a administração do mercado identificou o dono do dinheiro, o produtor rural Kazuo Koshimizu, um dos fornecedores de verduras do centro comercial. O produtor buscou a quantia no mesmo dia, mas não conheceu Ana Cristina, que já havia encerrado o trabalho.
O encontro dos dois só ocorreu anteontem. “Fiquei emocionada quando conheci o dono do pacote. Ele me agradeceu e disse que era para falar com ele caso precisasse de alguma coisa”, diz Ana Cristina, que recebeu R$ 50,00 como prêmio.
A deficiente afirma ter recebido elogios e críticas por devolver o embrulho. “Chegaram a me perguntar: “por que você não levou o pacote para casa, para ver o que tinha dentro?’ Falaram que eu poderia ter ficado com o dinheiro, mas aprendi que ficar com coisas dos outros não é certo”, diz a jovem.
De acordo com Rodrigo Ramos, psicólogo da Apae, a deficiente já está apta a ter um emprego formal. “O estágio permitiu a ela conhecer regras do mercado de trabalho.” Ana Cristina mora em Campinas desde 2002, depois de se mudar de Recife (PE).