“Somente os nativos e ribeirinhos conhecem os limites das terras e das águas que constituem Uruapiara, no Amazonas. Tentei entender o significado da palavra de origem parintintins, tribo que deu nome à região e, sem muita certeza, o que entendi é que significa: lago de grande brilho, luz, ou ainda reflexo.
Saímos de Porto Velho, Rondônia, às 14h, de ônibus com destino a Humaitá, no Estado do Amazonas, por uma estrada federal, a BR 319, que recebeu a primeira e única camada asfáltica no final da década de 70, ainda sob a política de Brasil grande, do governo militar. Hoje, os 200 quilômetros estão inclusos no programa do governo federal para recapeamento.
E mesmo após quatro horas de viagem até Humaitá, por trechos de acostamentos, dezenas de pontes, onde só passa um carro de cada vez, buracos gigantescos, lama e desvios, as placas do Denit lá estão com a frase: mais uma obra do governo federal.
Havia a opção de irmos de barco de Porto Velho à Humaitá, pois ambas as cidades são banhadas pelo mesmo rio, o Madeira, porém o tempo de viagem seria de oito a dez horas.
Escurecia quando chegamos ao porto de Humaitá, que continua da mesma forma que o conheci em 1981, como membro de uma equipe do projeto Rondon. Os barcos atracam no barranco às margens do rio Madeira, e o ingresso à embarcação se faz através de uma prancha de madeira, móvel e escorregadia.
A maior dificuldade para que a cidade tenha um porto com estrutura moderna em uma cidade banhada por um rio como o Madeira é ter que construí-lo com recursos e tecnologia que suporte as variações de cheias e vazantes, que podem atingir até 20 metros de diferença.
Embarcamos apressados no Caçote, nome do barco, para aproximadamente 50 pessoas, procurando espaços para fixar nossas redes no segundo piso, e que nos levaria até Auxiliadora, uma vila na margem esquerda do rio Madeira, numa viagem de 14 horas.
Escureceu rápido sob um céu nublado e ar abafado no verão da Amazônia, que eles teimam em chamar de inverno, porque é a estação das chuvas. A passagem no valor de R$ 25,00 incluía o jantar e o café da manhã. Naquela noite comemos galinha ao molho com macarrão, arroz e farinha. Conversamos por algum tempo, fizemos amizades curtas e nos acomodamos nas redes.
Tinha sono, mas me sentia inseguro. Busquei com os olhos o local dos salva-vidas, e tentei contar quantos passageiros éramos naquele piso, notei que o barco estava com lotação máxima. Crianças choravam, jovens ouviam música, senhoras conversavam deitadas em suas redes, outros já dormiam. Não havia espaço para circulação. Todas as bagagens ficavam no chão, embaixo de cada rede.
Viajar num barco lotado, à noite, no rio Madeira e com chuva é uma sensação de total insegurança. Saí da minha rede e fui até a cabine do comandante. Um senhor de expressão tranqüila e pele queimada de sol respondeu a todas as minhas perguntas. Duração da viagem, a condição do tempo, porque navegar pelas margens, porque o barco não pára ao apanhar os passageiros no caminho, quantos passageiros ainda ele esperava embarcar durante a noite. Enfim, ele demonstrava segurança e eu consegui reduzir sensivelmente a minha ansiedade, mas mesmo assim não dormi tranqüilo, acordava toda vez que o bote de embarque saía ou atracava levando ou trazendo novos passageiros.
Apesar do verão, a noite foi fria e ao amanhecer o rio estava coberto por uma espessa neblina. Chegamos a Auxiliadora com os primeiros raios do sol. O ar da manhã estava úmido e fazia o chão escorregadio. Desembarcamos para esperar a embarcação que nos levaria até Bom Conselho no Uruapiara."
* Olício Pelosi é fotógrafo