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Renitências


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Duas coisas no Brasil parecem incorrigíveis: a) o discurso ao eleitor prometendo exatamente aquilo que o candidato sabe que não vai cumprir; b) a ênfase com que o debate econômico normalmente se dedica a algum falso dilema enquanto o verdadeiro problema vai se avolumando sem que a sociedade perceba ou mostre um real interesse em se ocupar dele.

Costumo lembrar um caso externo e outro ocorrido entre nós, como contraponto. A referência externa diz respeito às eleições na Irlanda em que o candidato a primeiro-ministro foi à TV declarar com todas as letras que se fosse eleito iria realizar um forte ajuste fiscal pelo lado da Despesa, cortando gastos de custeio do governo. Para escândalo nosso, foi eleito por grossa maioria e logo que assumiu cumpriu rigorosamente o que prometera... Aqui no Brasil assistimos nas últimas eleições presidenciais a curiosíssima troca de posições dos candidatos procurando esconder o que pensavam sobre as privatizações e ainda a incrível “saia justa” em que foi metido um digno assessor tucano por ter tido a “desfaçatez” de defender, em plena campanha, a contenção dos nossos indecentes gastos públicos.

Já o dilema do atual debate das questões econômicas é que estamos repetindo erros de um passado recente sem atentar que eles nos conduzem a uma nova situação de dependência externa, porque nos recusamos a discutir seriamente as conseqüências da supervalorização cambial sobre o setor exportador industrial brasileiro. A tendência é acreditar que estamos protegidos graças aos superávits produzidos pelos bons preços das exportações agrícolas e minerais numa quadra de crescimento da economia mundial. Essa valorização tem sido bem aproveitada pelo Brasil, mas é evidente que não é eterna.

A eliminação do constrangimento externo no governo Lula é uma coisa formidável mas não devemos nos deixar anestesiar como nos anos 1994 a 1999 quando as pessoas só tinham olhos para o sucesso no combate à inflação e poucos queriam discutir a política cambial que produziu quatro efeitos simultâneos:

1) Desmantelou o setor industrial exportador.

2) Permitiu a acumulação do déficit em conta corrente de US$ 186 bilhões que nos colocou de joelhos diante do FMI em 98 e em 2002.

3. Aumentou a dívida interna de 30% para 55% do PIB.

4) Aumentou a carga dos impostos de 24% para 34% do PIB.

Qualquer tentativa de questionar a política cambial do primeiro mandato de FHC era contraditada pelo governo, que desqualificava as queixas da indústria com um argumento mistificador que, infelizmente, está sendo usado novamente hoje! Diziam então (e voltam a dizer) que o problema não é no câmbio e sim da produtividade brasileira que impede que as nossas exportações de industrializados sejam mais vigorosas. Citam a “produtividade” da indústria chinesa como exemplo, mas a produtividade da nossa indústria é rigorosamente a mesma, internamente.

A diferença está na relação câmbio/salários, no diferencial de juros internos e externos e na extravagante sobrevalorização do Real. Insistimos em usar a taxa de câmbio como uma variável de controle da inflação, sem atentar que a indústria exportadora está murchando e sem entender que só as exportações industriais podem garantir a capacidade de importar futura e, portanto, sustentar taxas robustas de desenvolvimento.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

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