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Juventude tem diversidade de tribos

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

O bauruense Daniel Luiz dos Santos tinha apenas 16 anos de idade quando ganhou seu primeiro carro - um Gol “quadrado” rebaixado, com rodas de aro grande. De lá para cá, já trocou três vezes de veículo e, hoje, aos 22 anos, é dono de um Audi A3, ano 97. Calcula já ter gasto mais de R$ 10 mil para incrementar o “possante”.

Karina Rodrigues Ribeiro tem 18 anos e freqüenta raves desde os 17. Atualmente, é tão ligada à música eletrônica que chega recorrer ao som do psy-trance para despertar depois de uma noite de sono. Lázaro Miguel Júnior, 22 anos, também conhecido como Juninho, trabalha como auxiliar de comércio e, nas horas vagas, é vocalista de uma banda de hardcore chamada Artigo DZ9. Costuma votar nulo e garante ser contra toda e qualquer forma de governo.

Em princípio, essas três pessoas parecem não ter nada em comum, a não ser o fato de serem jovens. Mas as diferenças entre eles não são tão grandes quanto aparentam: cada um deles, ao seu modo, está buscando uma forma de se afirmar no mundo. Karina, por meio da música que escuta e das baladas que freqüenta; Daniel, com seus carros incrementados; Juninho, através de sua banda e de sua postura contrária à sociedade capitalista.

Os três, de alguma forma, não quiseram se perder na uniformidade da massa; preferiram ingressar (ainda que de maneira inconsciente) em uma tribo, na qual podem agir, pensar e se vestir da maneira como julgam correto.

Basicamente, tribos urbanas podem ser definidas como pequenos agrupamentos sociais que têm como objetivo estabelecer redes de amizade a partir de afinidades e interesses comuns (um gosto musical, por exemplo).

Os membros de uma tribo costumam apresentar pensamentos, hábitos e maneiras de se vestir bastante parecidas. Punks, head bangers (ou metaleiros) e góticos; agroboys, marombeiros, patys e emos; amantes do tuning, freqüentadores de raves e integrantes do hip hop - estes são apenas alguns dos grupos possíveis de ser encontrados em Bauru.

Não há como estimar quantas tribos existem na cidade, mas é possível afirmar que elas vêm crescendo em número, a cada ano que passa. Em 1989, quando assumiu o cargo de diretora na Escola Estadual (EE) Ernesto Monte, Heloise Helena Cerqueira Souza quase não percebia diferenças entre os alunos.

“Divisões até existiam, só que não eram muito nítidas”, afirma. Hoje, de acordo com ela, é possível se encontrar no local adolescentes vestidos como punks, emos e até góticos. Nas festas do Ernesto Monte, alunos que se identificam com hip hop costumam fazer apresentações de break; nos finais de semana, garotos amantes do skate reúnem-se no pátio da escola para executar suas manobras.

Segundo a diretora, a adesão às tribos costuma ocorrer quando os adolescentes estão na faixa dos 12 anos de idade. “É uma forma que os garotos encontram para se afirmar. Em grupo, eles se sentem fortes o bastante para fazer coisas que certamente não fariam, caso estivessem sozinhos”, acredita.

De acordo com estudiosos, o desejo de se diferenciar da massa e de se afirmar perante a sociedade são os fatores que mais ajudam a “empurrar” os jovens em direção às tribos. “Os adolescentes buscam se inserir em grupos para desenvolver o sentimento de identidade. É como se ‘pegassem’ algo do outro (dos demais integrantes da tribos) para se constituir enquanto indivíduos”, explica o psicólogo bauruense Rodrigo Ballalai, que atualmente desenvolve projeto de mestrado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis.

Nas últimas semanas, a reportagem do Jornal da Cidade entrou em contato com jovens e adolescentes de Bauru para saber o que os levou a se tornarem parte das tribos. Acompanhe, a seguir algumas dessas histórias.

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Hip hop: mudar o mundo com palavras e atitude

Com raízes na cultura negra das grandes metrópoles norte-americanas, o hip hop encontrou terreno fértil para se desenvolver nas periferias das cidades brasileiras. Hoje é uma dos movimentos que mais se encontram difundidos entre os jovens ao redor do País.

Os elos entre os integrantes dessa tribo hip hop vão além das roupas largas, dos bonés coloridos e do linguajar repleto de gírias. O hip hop tem um lógica própria, baseada em quatro elementos: o grafite, o break (dança de rua), a música (o rap, derivado do inglês “rhythm and poetry” ou “ritmo e poesia”, em português) e a atitude frente às mazelas sociais e à discriminação racial.

Em Bauru, integrantes do movimento costumam se reunir em eventos realizados na praça Rui Barbosa e em bairros de periferia. Renato “Magu” Moreira tem 26 anos, mora na Vila Independência e faz parte do mundo do hip hop desde que tinha 12 anos.

“Eu estava passando pelo Centro quando dei de cara com uma apresentação de rap que estava ocorrendo na praça. Aquilo me chamou a atenção: as letras das músicas diziam coisas que eu sempre quis ouvir mas ninguém jamais me havia dito”, recorda.

Atualmente, ele é agente cultural e organiza eventos que visam divulgar a cultura hip hop na cidade e na região.

Grafite

Rafael Souza Francischini tem hoje 28 anos e mora no Parque Vista Alegre, zona norte de Bauru. É tatuador e grafiteiro. No passado, foi de tudo um pouco - chegou, inclusive, a fazer parte da Marinha. “Fui aluno da Escola de Tecnologia Naval, em Rezende, Rio de Janeiro, mas preferi largar tudo para viver do jeito que gosto”, conta.

Há 12 anos, Rafael se tornou tatuador. Em pouco tempo, o contato com os desenhos fez com que ele resolvesse se arriscar em outras artes visuais. Foi quando conheceu o grafite. Montou um grupo chamado Sociedade Quebra-Cabeça, que atualmente conta com 12 integrantes.

Ele e o companheiros percorrem as ruas da cidade transformando muros e monumentos em verdadeiras obras de arte. “Quando fazemos um desenho, é como se estivéssemos transferindo nossos sentimentos para as paredes”, explica.

Em geral, os trabalhos da Sociedade Quebra-Cabeça costumam ser voltados para jovens moradores de bairros carentes da cidade. “É um espécie de resgate dos talentos esquecidos da periferia. Muitos têm um potencial artístico enorme e nem se dão conta disso”, diz Francischini.

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