O Filme “Tropa de Elite”, do diretor José Padilha, tornou-se mania nacional e milhões de pessoas assistiram à produção, seja pelo DVD pirata ou nas salas de cinemas. Segundo avaliação do DataFolha, 77% dos moradores de São Paulo já haviam assistido ao filme e mais de 80% desses avaliaram o filme como “bom”.
A produção trata de algumas questões-chave dentro da sociedade brasileira e apresenta um recorte bastante polêmico sobre valores éticos e morais. Ao contrário de seu primeiro sucesso, o “Ônibus 174”, neste caso José Padilha emite uma visão totalmente diferente do infrator. Se naquela obra o diretor preferiu mostrar um lado humano e tentar abordar a vida do jovem Sandro, que se tornou delinqüente e acabou morrendo após uma tentativa frustrada de seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro, em Tropa de Elite a visão é totalmente oposta.
Segundo jornais e revistas, o filme “trata bandido como bandido”. Mas, muito além disso, alguns problemas crônicos brasileiros são apontados, como o tráfico de drogas, a corrupção policial, tortura e, principalmente, o papel da classe média em torno disso.
Dirigido a esse público, Tropa de Elite e seu capitão Nascimento se tornaram um refúgio para que a classe média sinta-se protegida e ainda acredite em uma salvação da sociedade, mesmo que seja da forma violenta e brutal apresentada pelo BOPE (Batalhão de Operações Especiais).
A discussão da produção invadiu salas de aulas, reuniões formais, conversas de almoço em família e discussões em bares. Produzido em primeira pessoa, Tropa de Elite explica como algumas instituições da sociedade têm seus lados podres e aqueles que tentam lutar contra esse “sistema” tem grandes dificuldades para se manter atuante.
Também discute o financiamento de drogas. Padilha coloca o jovem com poder aquisitivo que é usuário de narcóticos como grande financiador do tráfico, já que sem o consumidor não existiria o porquê da venda.
No entanto, principalmente, há uma visão de limpeza da sociedade e, com um caráter extremamente determinista, Tropa de Elite não enxerga saída para crianças e adolescentes que são seduzidos pelo tráfico e vão trabalhar em prol de organizações criminosas. Mas, será que a solução dos problemas está na atitude e agressividade do BOPE?
Salas de cinemas lotadas aplaudiram o filme em seu término, como em um espetáculo de justiça e complacência. Mas, é preciso ficar claro que quem se coloca a favor do BOPE e diz “é isso mesmo que deve ser feito” parece estar de acordo também com a tortura, com a banalização da vida e com uma visão de que não há mais o que fazer.
Talvez, cansado de promessas que não são cumpridas e também incompetente para fazer alguma coisa, o brasileiro encontra na solução mais simples a forma de limpar a sociedade e poder descansar tranqüilo. A verdade é que Tropa de Elite de uma maneira ou de outra desperta uma cadeia de ira. Nascimento tem sua ira despertada contra a corrupção e o tráfico, em conseqüência, o militar desperta a ira em seus comandados e, por último, a o filme desperta a ira daquele que o assiste, que pode revelar seu lado mais sombrio, se identificando com as ações que ali se passam.
A discussão de Tropa de Elite deve ser feita de forma profunda e a reação popular deve ser analisada com calma e contextual. Desemprego e violência são os grandes problemas brasileiros e suas resoluções serão metas a longo prazo de qualquer governante que assumir o país nas próximas décadas. Mas, se um programa político que coloque a invasão e ocupação da favela como solução e for aceito, aí sim nossas cidades vão passar a verdadeira guerra civil que apresenta o filme. E, se boa parte da nossa sociedade é a classe média e esta se coloca a favor de Tropa de Elite, também poderá alimentar esse programa de eliminação.
Bernardo Sanches - RG 44.240.791-9