Bairros

Atividades que sobrevivem à tecnologia

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 12 min

Procure uma escola profissionalizante e veja a relação de cursos. Com certeza não haverá mais aulas de datilografia ou manutenção de máquinas de escrever, nem de videocassetes. Tudo isso ficou para trás, e olha que o videocassete nem é tão velho assim, mas perdeu sua função com a chegada do DVD.

Alguns profissionais como leiteiros e padeiros – não os que trabalham em padarias, mas os que fazem pães em casa e vendem de porta em porta – dificilmente serão encontrados. A tecnologia transformou a vida de todos, e profissões que eram comuns em outros tempos foram se extinguindo aos poucos, apesar de alguns “românticos” morrerem de saudades delas.

As novas descobertas da tecnologia deixaram muitos profissionais a ver navios, mas outros ainda se mantêm, porque a modernidade não pôde derrubá-los. Um calígrafo, por exemplo. Nenhum computador, por mais moderno que seja, pode substituir a mão do artista. E olha que os computadores fazem coisas fantásticas, mas, usando um clichê, “nada substitui o talento”.

Se por um lado a tecnologia avançou a níveis inimagináveis e tirou muita gente do mercado, essa mesma tecnologia deu sobrevida a algumas profissões, afinal, não é todo mundo que gosta de comprar suas roupas já prontas e depois ter que fazer ajustes, pois a máquina que as confeccionou não segue parâmetros individuais, produz em série, como se todas as pessoas tivessem o mesmo manequim.

Da mesma forma, quem gosta de uma boa guloseima, com certeza vai preferir aquela feita em casa, pelas mãos de uma competente cozinheira. Pense em uma bala de coco, aquelas de festas de aniversário. Você prefere as industrializadas ou as produzidas artesanalmente, com coco natural? Essas não são mais suculentas do que as que são feitas por uma máquina?

Por conta disso tudo, algumas profissões ainda persistem, e seus profissionais se orgulham de fazer um trabalho diferenciado. Podem até ser chamados de saudosistas, mas enquanto houver pessoas dispostas a ter um pouco mais de qualidade em detrimento às facilidades da tecnologia, eles com certeza resistirão.

Se há aqueles profissionais que resistiram à modernidade, há outros que tiveram que se adequar a ela. As figuras das costureiras e sapateiros, por exemplo, se tornaram conhecidas pela produção de roupas e sapatos exclusivos, mas esses eram outros tempos. Atualmente, a facilidade de se comprar esses produtos com preços mais acessíveis dificultaram a vida desses profissionais. Para sobreviver, eles também se adequaram aos novos tempos.

Se antes a produção era o forte, hoje o conserto de roupas e sapatos se tornou a principal razão da existência dele. O dia em que esses produtos se tornarem descartáveis de vez, aí esses profissionais terão que se aposentar ou tentar se adequar novamente. O JC saiu em busca de alguns profissionais e vai mostrá-los para que o leitor conheça um pouco de cada um e saiba que ainda há amor por algumas profissões, ainda que a modernidade tente extinguí-las.

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O calígrafo

Calígrafo (do grego kalligraphos): especialista em caligrafia. Caligrafia (do grego kalligraphía): arte de escrever à mão segundo determinadas regras e modelos. Depois dessa definição do “Aurélio”, podemos ter uma idéia do que se trata a profissão de calígrafo. Antigamente, esse profissional era muito requisitado para fazer convites de casamento, diplomas, títulos, entre outros materiais que precisassem da arte da caligrafia.

Atualmente a atividade não chama mais tanto a atenção das pessoas, sobretudo por conta das novas tecnologias, que transformaram o computador no “artista” dos tempos atuais. Apesar disso, há quem resista e se mantenha firme na atividade. É ocaso do calígrafo Jorge Iossef Nadin, 74 anos, sendo 59 deles dedicados a esta arte milenar.

A caligrafia não dá muita renda a Nadin, pelo contrário, serve apenas como um complemento. Tanto é que apenas nos últimos 18 anos ele se dedica completamente a profissão, apesar de ter aprendido o ofício aos 15 anos. “Depois que me aposentei comecei a me dedicar integralmente e me aprimorar mais no ofício”, conta.

A permanência na profissão não garante a volta dos bons tempos. Nadin resiste, mas sabe que é muito difícil para alguém sobreviver como calígrafo. “A procura é muito pouca, mas nem sempre foi assim. Já teve semana em que escrevi mais de 800 envelopes”, afirma. Apesar de ter habilidade para desenhar brasões e fazer os mais variados tipos de letras, Nadin se orgulha mesmo de ter se especializado em títulos de cidadão, honraria que é concedida pelos vereadores para pessoas que se destaquem e não sejam nascidos no município.

O mais famoso título de cidadão que o calígrafo produziu foi para o cantor Sérgio Reis, mas ele gostaria de melhorar o trabalho. “Quando fiz, ainda não tinha muita técnica. Se fosse hoje ficaria muito melhor”, comenta.

O desafio de Nadin é passar adiante tudo o que aprendeu em quase 60 anos de atividade. Idealista, ele afirma que já ensinou para muita gente a arte da caligrafia, mas é difícil manter os aprendizes no ofício por diversas razões. “Além de não dar muita renda, dá muito trabalho, porque é totalmente artesanal”, diz.

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O alfaiate

Não há pessoa mais saudosista do que o alfaiate. Acostumado a produzir roupas com cortes impecáveis, este profissional foi traído pelos tempos modernos e tem muito a reclamar. Afinal, o homem moderno não é tão elegante como aquele que vivia antigamente. Nem por isso o alfaiate Mauro Ribeiro Cabogrosso, 70 anos, desistiu do ofício.

A arte de produzir uma roupa com corte impecável não é mais tão valorizada, mas ainda há os que preferem um produto personalizado do que a mesmice que ronda as lojas de confecções. Cabogrosso ainda se mantém fiel ao estilo, mas sabe que clientes novos são difíceis de conquistar. A maioria dos clientes do alfaiate são pessoas que se mantiveram fiéis a ele, sem se bandear para as lojas, onde tudo é mais fácil.

Ele aprendeu o ofício aos 9 anos e não parou mais. Depois de ter uma oficina no Centro, Cabogrosso se mudou para o Estoril, onde está há 45 anos. Com freguesia tradicional, o alfaiate reclama que a modernidade e a facilidade em comprar roupas prontas não só atrapalharam a profissão como também deixaram o homem deselegante. “Antigamente você ia ao Centro e os homens estavam bem vestidos, de braços dados com as namoradas. Hoje você vê pessoas de chinelo, bermuda e camiseta, sem nenhuma preocupação com a elegância. O homem ficou largado”, reclama.

Cabogrosso tem razão em se queixar, pois a profissão que exerce com afinco há tanto tempo lhe rendeu tudo o que tem hoje. Atualmente a produção caiu muito, e ele confessa que não teria condições de sobreviver só com a renda proporcionada pelo ofício. Da mesma forma, não há pessoas interessadas em aprender a profissão.

Ele lembra que começou a trabalhar com um alfaiate na infância e foi aprendendo o ofício. Hoje ele sabe que é praticamente impossível isso acontecer. “As leis trabalhistas não permitem mais que menores trabalhem como eu trabalhei naquela época”, lembra. Com isso, aliado ao desinteresse em aprender, a profissão corre o risco de ser extinta por falta de profissionais.

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A costureira

Um exemplo de resistência ao tempo é a figura da costureira. Não tem modernidade e tecnologia que dissolvam a profissão, até porque, por melhor que seja a máquina, alguém precisa operá-la. Muitas confecções continuam contratando costureiras e ainda há cursos para este ofício. Raridade mesmo é a costureira do bairro, aquela que atende de maneira personalizada e faz as roupas sob medida para suas freguesas.

Não que ela tenha deixado de existir, pelo contrário, se andarmos pelos bairros de Bauru com certeza encontraremos uma oficina de costura. O que mudou foi a relação das clientes com essas profissionais. Antigamente as pessoas procuravam as costureiras para produzirem suas roupas. Nada podia substituir um desenho exclusivo, um tecido com estampa que ninguém mais ia ter, porque foi escolhido a dedo pela freguesa e costurado com precisão pela costureira.

As profissionais que ainda persistem na atividade atuam mais em manutenção de roupas do que na confecção. É o que afirma a costureira Maria dos Anjos Souza, conhecida como Fátima. Aos 53 anos, ela ainda mantém uma oficina de costura, ofício que começou a exercer aos 20 anos. Mas da época do aprendizado até agora, muita coisa mudou. “Antigamente você fazia muita roupa. Comprava o tecido e costurava para as pessoas. Hoje elas procuram a gente mais para fazer reforma”, conta.

Além de se adequar à nova realidade da profissão, Fátima precisou se modernizar, comprar máquinas novas para poder fazer frente à concorrência, que, segundo ela, é muito grande nessa área. “Tem que se modernizar porque a concorrência no nosso ramo é grande. Não adianta querer viver do passado”, afirma.

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O sapateiro

Manoel Cirino Neto tem 59 anos e já foi desenhista mecânico, tendo trabalhado na função em uma indústria, mas ele ficou conhecido em Bauru como sapateiro. Há 40 anos Cirino exerce a profissão, sendo que 33 deles foram no mesmo lugar, no Altos da Cidade. O ofício, aprendido com outro sapateiro, já não seduz muita gente, mas não o afasta de sua atividade.

Assim como as costureiras, Cirino teve que se adequar aos novos tempos, mudando o foco da profissão. Se antigamente era comum as pessoas o procurarem para fazer sapatos, hoje a oficina vive de pequenos consertos. “Não tem mais quem faça sapatos por encomenda, porque fica muito caro”, comenta.

De fato, a industrialização, com a produção em massa, e os materiais de qualidade inferior ao couro deixaram os sapatos bem mais baratos nas lojas, o que, para os sapateiros, foi praticamente o fim da atividade como era conhecida. “Hoje em dia se você manda fazer um sapato sai muito caro, então as pessoas preferem comprar nas lojas”, diz.

Outro empecilho à profissão é o maquinário para a produção de calçados. Cirino afirma que, mesmo que quisesse continuar fazendo os pares de sapato, seria difícil porque a máquina é cara e não compensa o investimento. “De vez em quando aparece alguém pedindo para fazer, mas não tem como, porque não tenho as máquinas necessárias”, explica.

Desta forma, os consertos se tornaram a principal função de Cirino, que a exerce com satisfação. O maior problema é ter poucas pessoas no ofício, que já foi muito requisitado. Antigamente, lembra ele, os clientes procuravam algo a mais. O tempo passou e assim como os alfaiates, que ficaram sem seus clientes, os sapatos sob medida ficaram em algum lugar no passado.

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Produzindo balas

O casal Elizeu Francisco Alves e Maria de Fátima Poloni não tem do que reclamar sobre a atividade que exercem. Afinal, o ofício que sustenta a família é muito requisitado, até porque não tem muita gente exercendo essa função. Elizeu e Fátima produzem balas de coco. E são de dar água na boca. São 15 sabores diferentes, recheadas ou não, que adoçam as festas e o dia-a-dia de quem adora essa guloseima. E quem não gosta?

O segredo do sucesso é de família. Há 18 anos, Elizeu aprendeu com uma irmã, mas não foi só ele. Vários parentes fazem sucesso em outras cidades com as balas de coco artesanais. “Tem parentes em Americana, Jaú e outras cidades que fazem as balas também”, conta Fátima.

Se depender de passar a receita para as futuras gerações, o sucesso da família está garantido por mais um tempo, já que a filha do casal já ajuda na produção de balas e está aprendendo como fabricar. Engana-se, no entanto, quem acha que é tudo fácil. Segundo Fátima, o trabalho começa às 3h e, dependendo do dia e do número de pedidos, vai até o fim da tarde. “Nós fabricamos cerca de 50 quilos de bala por dia”, afirma.

A vantagem de Fátima e Elizeu é a falta de concorrência. Ela comenta que sabe apenas de mais uma pessoa que fabrica balas artesanalmente em Bauru, ou seja, a concorrência é bem pequena. O casal também confia que a atividade ainda vai dar muitos lucros, já que as balas fabricadas industrialmente não são feitas com produtos naturais. “Nós usamos o coco mesmo, não fazemos com leite de coco, como as empresas”, explica.

Ao contrário das outras profissões, onde o tempo foi cruel e praticamente extinguiu, os produtores de balas seguem felizes, pois sempre haverá quem prefira o sabor natural do coco do que a praticidade de comprar tudo pronto.

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O barbeiro

Se há um profissional que não vemos com freqüência, este profissional é o barbeiro. Já não se encontram na cidade aquelas barbearias românticas, com as cadeiras antigas, onde aos homens iam mais para fazer a barba do que para cortar o cabelo. Às vezes eles apareciam para fazer ‘barba, cabelo e bigode’, como gosta de lembrar o colega de JC Leonardo de Brito, que comenta com saudade das velhas barbearias.

O barbeiro era um profissional tão valorizado que até ópera fizeram em sua homenagem (“O Barbeiro de Sevilha”, de Giovanni Paisielo). Atualmente, são raros os profissionais que mantêm a aura romântica de outrora. Hoje em dia os grandes salões de cabeleireiros dominam as atividades e a figura do barbeiro é quase obsoleta, mas há os que resistem.

Um deles é Cândido Joaquim dos Santos, ou, simplesmente, Candinho, 72 anos, sendo 50 de profissão. Candinho aprendeu o ofício no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e não parou mais. Trabalhou durante alguns anos no Salão Rio Branco, na rua Gustavo Maciel, até abrir sua própria barbearia na Batista de Carvalho. Hoje ele atua no Altos da Cidade e tem uma freguesia selecionada. “São médicos, dentistas, advogados, que procuram a gente para fazer a barba e cortar o cabelo”, explica.

Essa freguesia selecionada vai atrás de um serviço que é oferecido por bem poucos na cidade. Candinho não se vangloria, mas reconhece que a figura do barbeiro já se tornou folclórica, e por causa da modernidade muita freguesia se perdeu, mas os clientes atuais “herdaram” o barbeiro dos pais e avôs. “Passou de pai para filho. Tem freguês que eu já fiz a barba do avô, do pai e agora faço do filho”, lembra.

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