Bairros

Diferencial faz profissões resistirem

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 3 min

Você já deve ter ouvido a expressão “oferecer algo a mais”. O que isso significa? Na lógica do mercado, significa atendimento personalizado, bons preços, tratar bem a clientela, para que ela sempre volte. Na visão do economista Reinaldo Cafeo, esse diferencial mantém vivas algumas das profissões mais antigas. Ele vai além: “Com as grandes redes de supermercados vendendo de tudo, há estabelecimentos comerciais, como os açougues, que sobrevivem por causa desse diferencial”, comenta.

As profissões mais antigas foram perdendo espaço para a tecnologia, a modernidade e a concentração de atividades em centros de compra dificultaram a vida de pessoas que sobreviviam das profissões citadas neste caderno. Algumas atividades, como o pipoqueiro, por exemplo, deixaram praticamente de existir depois que os cinemas resolveram vender sua própria pipoca. Hoje eles estão em portas de igreja e escolas, mas a dificuldade para encontrar um desses profissionais é grande.

Para Cafeo, algumas atividades sucumbiram por conta da industrialização, mecanização, produção em série, depois o crescimento do centro de compras. Outras resistem porque apostaram em um diferencial. “Quem oferece algum tipo de diferencial acaba encontrando um público para isso”, afirma.

É o caso, segundo ele, do alfaiate, um dos profissionais citados nesta reportagem. O economista afirma conhecer pessoas que só usam camisas personalizadas, que querem um corte especial para suas roupas. “Então, essas profissões apostariam num diferencial e cobrariam preços proporcionalmente a esse diferencial, mas é evidente que não terão o mesmo volume, o mesmo apelo e apetite de vendas que tinham no passado”, frisa.

Da mesma forma, Cafeo cita que profissionais como o sapateiro ficam restritos a pequenos serviços, consertos que as pessoas não querem fazer em casa, mas perderam o apelo da fabricação por causa do grande número de ofertas de calçados que se encontra atualmente.

O economista lembra que o lado romântico passou. O que as pessoas buscam atualmente é o conforto, a economia de tempo e dinheiro, além da sensação de segurança que os grandes centros de compra proporcionam para os clientes. Diante desse quadro, esses locais acabaram “engolindo” algumas funções e extinguindo esses profissionais.

Outro exemplo que o economista cita é o guarda-chuva. Segundo ele, antigamente havia lojas especializadas neste produto, e as pessoas iam comprar sombrinha, capa de chuva, chapeleira. Mas isso acabou e não dá sobrevida aos profissionais. “Às vezes as pessoas resistem por determinação, mas ou busca um nicho e oferta para esse nicho, ou acaba”, ressalta.

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O futuro

Não é dos melhores o futuro para quem ainda resiste nas antigas profissões. Até aqueles que se modernizaram podem perder sua função dentro do mercado. O economista Reinaldo Cafeo lembra que os aparelhos celulares podem chegar a um nível de preço tão acessível que o seu conserto pode se tornar obsoleto muito em breve. Será mais vantajoso, aponta ele, comprar um aparelho novo do que consertar um usado, ou seja, um profissional a menos em atividade.

Da mesma forma, Cafeo não vê como as antigas profissões resistam ao tempo, não só pela falta de pessoas interessadas em aprender, mas também pela lógica cruel do mercado. “Ele não consegue repassar seus conhecimentos, porque não há atrativo, a não ser as atividades que passam de pai para filho, mas mesmo essas correm o risco de se extinguirem de vez, porque os jovens estão interessados em outras coisas. Isso é irreversível, não tem romantismo. O capitalismo fala mais alto”, sentencia.

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