Conta-se que, na época em que o leiteiro vinha do sítio com a carroça com os tambores de leite, para vender direto nas residências, um certo dia, ao despejar o leite na vasilha da freguesa, esta notou que havia algo estranho e resolveu coá-lo. Eis que sobre a peneira aparece um guaru (peixinho comum nos pequenos rios, também chamado de barrigudinho). É que o leiteiro, antes de chegar à cidade, passava por um córrego e costumava botar um pouco de água para aumentar a sua receita. Com guaru ou sem guaru, o fato é que a água no leite sempre foi comum. O leite direto do produtor oferecia riscos à saúde pelas más condições de higiene dos estábulos e da ordenha.
Quando o leite pasteurizado se tornou obrigatório houve grande resistência por parte da população, que achava que o leite parecia mais fraco, diluído com água, e por parte dos produtores, que precisavam vendê-lo às usinas. À medida que a população foi se acostumando, houve, também, melhoria da produção com a higienização dos estábulos e da ordenha mecânica. O apuro de raças leiteiras e de sua alimentação permitiu leite de melhor qualidade e sua classificação em A, B e C, este último mais barato e de maior consumo. Finalmente veio o leite longa vida, cujo tratamento UHT e a embalagem tetra pak permitem conservar o leite fora da geladeira por até seis meses.
Numa embalagem bonita com os tipos integral, semidesnatado e desnatado, ninguém poderia imaginar que ele pudesse ser adulterado. Possivelmente continuaria recebendo água para aumentar o volume, mas nunca que recebesse substâncias nocivas à saúde como o soro (resíduo líquido resultante da produção de queijos e outros derivados, que é servido aos porcos), água oxigenada e até soda cáustica. Se adicionar água já é um procedimento desonesto e irresponsável, movido pela ganância, colocar essas drogas passou a ser um crime de alta gravidade.
Como uma coisa puxa outra, na leva dos safados do leite também foram descobertos os trapaceiros do queijo. Tão criminosa como a adulteração do leite é a reembalagem do queijo vencido para vendê-lo como novo, com outra validade. Como compram baratinho, deveriam primeiro se empanturrar com ele antes de vendê-lo, para sentir os efeitos de vender coisa estragada. Mas, salvo os ludibriados na boa fé, culpados são, também, os que compram para revender. Como existe um preço de mercado, qualquer comerciante sério conhece os limites de variação e rejeita as ofertas muito tentadoras, porque sabe que há alguma coisa de errado. Os que não são sérios aproveitam as ofertas para ganhar mais ou para fazer promoção, concorrendo deslealmente com os outros.
A adulteração de produtos acompanha o homem desde que começou a fazer trocas, mas hoje a bandidagem se espalhou de tal forma, que fica difícil saber se está sendo lesado ou não. Vai ao posto e não sabe se estão pondo gasolina ou solvente no seu carro; vai a uma oficina mecânica ou eletrônica e não sabe se as peças que pagou foram as que realmente foram trocadas; compra produtos alimentícios com muitas explicações na embalagem, citando os ingredientes e as calorias, mas como saber que é aquilo mesmo, já que, como no caso do leite, quem poderia imaginar que dentro daquela embalagem bonita e de empresa conhecida poderia haver soda cáustica e soro? Nem os remédios escapam da adulteração.
Parece que, quanto mais se fala em ética, existe mais gente maquinando fórmulas para enganar os outros em benefício próprio. Seria isso conseqüência da podridão existente nos órgãos do governo, onde muitos de seus agentes, que deveriam dar o exemplo de boa conduta e punir os criminosos são os primeiros a dar o mau exemplo? É uma boa pergunta.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru