Ele não é atleta, nem mesmo um esportista de fim de semana. Um consultor em informática acostumado com a vida sedentária diante do computador decidiu se aventurar sobre uma bicicleta e percorreu, em apenas 16 dias, mais de 973 quilômetros. O fluminense Reinaldo Parisi, 34 anos, deixou de lado, por alguns dias, o ambiente sóbrio do escritório em que trabalha e visitou 31 cidades no trajeto entre Teresópolis (RJ) e Bauru, ponto final da jornada concluída ontem por volta das 9h30 em frente ao Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo, o Centrinho.
Mesmo sem nenhuma aptidão para os esportes, a motivação para tamanha ousadia foi mais forte: Maria Letícia, sua sobrinha de 2 anos, vítima da síndrome de Apert e paciente da instituição desde nascida. A doença é uma forma rara de anomalia craniofacial que acomete um bebê a cada 160 mil nascimentos.
O objetivo da travessia, segundo Parisi, foi disseminar informações sobre a síndrome e divulgar o trabalho desenvolvido pelo Centrinho há mais de 40 anos. Em cada cidade, distribuía folhetos sobre a instituição em hospitais que prestassem atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), além de relatar a história de Maria Letícia.
Ele revela que a decisão de fazer a travessia veio em novembro de 2006, quando a sobrinha passou por uma cirurgia delicada no cérebro para impedir o aumento da pressão intracraniana, que pode determinar danos à coordenação motora e à visão, entre outras funções, dependendo da área do cérebro atingida.
“Em duas semanas, ela já estava recuperada, toda serelepe, brincando para lá e para cá. Meu objetivo foi homenagear o Centrinho e informar os pais dessas diferentes cidades sobre o atendimento prestado gratuitamente pela instituição a crianças com anomalias craniofaciais”, explica.
Durante o percurso, Parisi emagreceu dois quilos, substituindo gordura por músculos. A rotina incluiu seis horas de pedaladas diárias e Parisi só parava para almoçar, quando não decidia por fazer a refeição sobre duas rodas. “Comia barras de cereal, frutas e tomava isotônico, que eu carregava em uma sacola, junto da bicicleta”, lembra. Depois de cumprida a parcela ‘física’ da missão, Parisi seguia para algum hospital que prestasse atendimento público da cidade.
Desafios
Em um único dia, o consultor chegou a percorrer 140 quilômetros em nove horas consecutivas sobre a bike. O ciclista só parava no início da noite, quando procurava algum hotel local para recarregar as energias para o dia seguinte.
“Em média, andava 75 quilômetros por dia, a uma velocidade de 18 quilômetros por hora, mas dependia muito do rendimento da estrada e das condições climáticas”, contabiliza ele, revelando que realizou todo o percurso com tranqüilidade, apesar de ter passado por alguns apuros na estrada, com medo de ser atropelado.
____________________
Treinamento
Ao todo, desde o treinamento iniciado em junho deste ano até ontem, Reinaldo Parisi percorreu mais de 2.700 quilômetros. Mesmo não sendo um esportista, com a orientação de profissionais e realizando todos os exames preventivos ele conseguiu concluir o árduo trajeto. “Foi recompensador, me faltam palavras para dizer o que estou sentindo. Foi uma emoção inédita e inesquecível.”
Após o fim da jornada, Parisi avalia que existe uma relação intrínseca entre pedalar e lidar com as dificuldades enfrentadas por um paciente com a síndrome de Apert. “O tratamento é lento, assim como pedalar também é um processo lento. Quando estamos em uma subida, fica difícil, é desgastante. Mas quando chega a descida, fica tudo tranqüilo, há um sensação gostosa daquele vento no rosto”, explica.
“Quando uma família descobre o diagnóstico de um filho com a síndrome também é difícil. Mas é preciso esforço, mobilização em busca de informações e do tratamento correto para que tudo fique bem”, conclui.