As histórias de vida dos 40 adolescentes selecionados em Santos (litoral de São Paulo) para freqüentarem as oficinas de interpretação e integrarem o elenco oficial do filme “Querô” não são mais as mesmas, ainda que nem todos continuem na profissão de ator.
Depois das cenas rodadas, o projeto “Oficinas Querô” continua na cidade litorânea. “Estamos aprendendo todo o processo de se fazer um filme. Alguns (dos atores) voltaram a entregar marmita ou água mineral, mas quando nos encontramos, percebemos que estamos na mesma energia de antes”, afirma o ator Samuel de Castro que esteve ontem em Bauru para uma coletiva no Alameda Quality Center, ao lado de Eduardo Bezerra.
Para retratar a história de Querô, que recebeu este apelido depois da mãe (Maria Luísa Mendonça), uma prostituta, morrer com a ingestão de querosene, o diretor Carlos Cortez trabalhou com adolescentes que conheciam de perto essa realidade.
Eles não só atuaram no filme como participaram do processo de criação do roteiro. “São todos adolescentes que moram na periferia e que não tinham experiência em cinema”, conta o ator Eduardo Bezerra. Para interpretar os personagens, ninguém decorou o texto. “Tínhamos um trabalho corporal que fizesse com que conseguíssemos chegar ao ponto ideal de emoção”, explica Bezerra.
A formação do elenco foi um capítulo à parte na composição do longa-metragem. Para encontrar o protagonista, a equipe de seleção de elenco saiu a campo pelas escolas, casas, cortiços e ruas de Santos, São Vicente, Cubatão e Guarujá. Foram realizados testes com mais de 1.200 meninos de 12 a 21 anos.
Destes, cerca de 200 freqüentaram oficinas testes coordenadas pelo preparador de atores Luiz Mario Vicente. No final, 40 adolescentes foram selecionados e passaram a freqüentar oficinas de interpretação e integraram o elenco oficial de “Querô”.
Depois que o filme foi rodado, a experiência desses jovens no cinema não acabou. Através de parcerias com a Unicef, Abrinq e Prefeitura de Santos, o “Oficina Querô” continua ensinando adolescentes da periferia a fazer cinema. Eles já fizeram o documentário “Eu fiz Querô” e outros seis curta-metragens.
Samuel de Castro dirigiu o curta “Torto” e Eduardo Bezerra, o “Maria Capacete”, por exemplo. O próximo passo é o início de um projeto piloto que vai levar o cinema para jovens da Febem de Guarulhos. “A intenção é estender esse projeto para outras Febens do Brasil”, conta Castro.
Invisibilidade
“Queremos mostrar que temos a mesma capacidade dos jovens da classe média que estuda em colégio particular e tem carro do ano. O que nos falta é oportunidade”, desabafa o ator Samuel de Castro.
O filme é resultado de um longo processo de trabalho do diretor Carlos Cortez e da produtora Gullane Filmes, que apostaram não só na força e na atualidade da história, mas também na riqueza dos cenários que a cidade de Santos oferece e no talento de jovens que vivem na mesma região retratada por Plínio Marcos em seu romance homônimo.
O filme aborda valores humanos, como a dura experiência do abandono. Os relacionamentos frágeis que se rompem conforme os interesses imediatos e o isolamento provocado pela exclusão. Aborda também o inconformismo do personagem principal pelo fato de se sentir empurrado para uma condição que ele não escolheu, para uma realidade dura e inevitável. Situação que muitos jovens brasileiros experimentam e a qual tentam reagir de diversas maneiras, algumas violentas.
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Sessão especial
Ontem, adolescentes e profissionais de psicologia assistiram a uma sessão especial do filme, através de uma parceria entre o Conselho Regional de Psicologia e o Alameda Quality Center. Em seguida, os atores Eduardo Bezerra e Samuel de Castro participaram de um debate, respondendo às perguntas da platéia.
O diretor do filme, Carlos Cortez, não compareceu, pois o vôo em que viria atrasou. O ator Maxwell Nascimento também não foi ao evento, pois está gravando diariamente a novela “Malhação”, na Globo. Ele foi premiado como Melhor Ator no 39.º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, 14.º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá e 17.º Cine Ceará: Festival Ibero-Americano de Cinema.