Por que um automóvel convencional tem sempre quatro rodas? Coincidência, obrigação legal ou imposição técnica? Nenhuma das anteriores. Simplesmente porque este é o arranjo mais adequado, simples e confiável para a aplicação que se pretende fazer de um carro de passeio. Existem outros veículos com as mais diversas configurações de rodas, desde apenas uma (monociclo), ou duas (como nas motos e bicicletas), três (nos triciclos) até centenas, como as carretas rodoviárias para pesos enormes. Cada configuração tem seu motivo e justificativa técnica, e às vezes nem tanto técnica e mais estética talvez.
As rodas, ou melhor, os pneus, são os únicos elementos de ligação física entre o veículo e o solo. Portanto, devem transmitir o torque do motor ao chão, devem segurar o carro nas curvas e nas frenagens, devem proporcionar estabilidade direcional ao veículo e suportar todo o peso do veículo carregado. Não é pouco o que se exige deles, ainda mais com a má qualidade do piso a que são submetidos. Já comentei que um pneu se deforma ao se apoiar sobre o solo devido ao peso sobre ele, e esta deformação forma uma área de contato com o solo pouco maior do que uma palma da mão. Isto significa que um carro andando a mais de 160 km/h tem que brecar e fazer curvas apoiado apenas em 4 mãos no chão... Quanta responsabilidade, não?
As configurações de rodas dependem, portanto do uso que se pretende fazer do veículo e de suas características técnicas. Um monociclo é o mais instável de todos, com sua única roda de apoio. Já as motos e as bicicletas têm outra característica distinta, pois são instáveis quando paradas e muito estáveis em movimento, devido ao efeito giroscópico das rodas. Devido à grande capacidade de inclinação lateral que as duas rodas proporcionam, elas podem fazer curvas de alta velocidade bem deitadas, compensando o efeito centrífugo. Mas quando paradas, precisamos colocar os pés no chão ou apoiá-las em cavaletes para que não caiam. Já os triciclos podem ter duas configurações, com roda dianteira única ou traseira única, e são perfeitamente estáveis quando parados. Já em movimento, oferecem menor estabilidade em curvas e são mais adequados para baixas velocidades. Os veículos de 4 rodas são os mais populares justamente por oferecerem melhor distribuição de peso, estabilidade, desempenho, capacidade de carga e aparência, mas requerem suspensões mais elaboradas do que os triciclos, pois precisam compensar o desnível do piso. Daí para frente, a quantidade de rodas varia em função da carga a ser transportada, do torque do motor e do piso em que o veículo tracionará.
Cada pneu suporta uma determinada capacidade de carga máxima, e a carga a ser transportada pelo veículo deverá ser distribuída por todos os pneus de forma a não ultrapassar este limite. Um caminhão trucado, ou seja, com 2 eixos de rodagem dupla na traseira, tem um total de 10 rodas, contando as dianteiras. Desta forma, se ele estiver carregado com 10 toneladas de carga, cada pneu deverá suportar 1 tonelada, se a carga for bem distribuída. Quando o eixo dianteiro for sobrecarregado, no caso de betoneiras ou guindastes móveis, por exemplo, um segundo eixo dianteiro direcional deve ser adicionado para melhor distribuição de carga e dirigibilidade. Assim, quanto mais rodas, mais carga pode ser transportada. O mesmo cálculo se faz de ordem inversa, quando se tem um limite estabelecido para carga sobre o piso, como acontece nas estradas. Se há um limite por eixo e o veículo tiver que transportar uma carga maior do que o permitido, o único jeito é colocar mais eixos (conseqüentemente mais rodas) para distribuir o peso sobre o solo. Com relação à tração, sabemos que um veículo 4x2, ou seja, de 4 rodas com tração em apenas 2, tem bom desempenho em piso seco, mas deficiente em fora de estrada. Desta forma, recomenda-se sempre que se tenha o máximo de eixos tratores possível quando a utilização for severa. Veículos militares blindados sobre rodas são sempre com tração total, ou seja, em todas as rodas, para melhor desempenho em qualquer terreno. Existem blindados de 4, 6, 8 e até 10 rodas, todas tracionadas. Isto não é tanto pelo peso do blindado, mas pelo desempenho que se espera dele em missões anfíbias e fora de estrada.
Portanto, cada veículo tem a quantidade de rodas que precisa para executar sua função.
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.