O que se espera de uma grande avenida, porta de entrada da cidade? Espera-se que tenha condições de atender a quem passa por ela, sejam os visitantes, sejam os moradores da cidade. Pois bem, a avenida Nações Unidas, além de ligar Bauru de norte a sul, também é privilegiada em muitos aspectos: ela tem de tudo. Duvida? Experimente fazer um passeio do início ao fim da avenida e você terá a oportunidade de encontrar de tudo.
Por ser um importante elo de ligação entra as regiões da cidade, além de ser a porta de entrada de Bauru, o fluxo de veículos da Nações Unidas é intenso, não só de motoristas bauruenses, mas também de moradores de outros municípios que vêm a Bauru em busca do comércio e dos serviços que a cidade oferece. Foi pensando nesse fluxo de veículos que uma grande concessionária resolveu abrir uma loja na avenida. Era o começo de uma tendência que vem se acentuando na extensão da Nações: a vendas de automóveis.
Não significa que esse tipo de comércio seja único no local, pelo contrário, há restaurantes, lanchonetes, choperias, churrascarias e até sex shop na Nações Unidas. Isso sem falar nos hotéis, colégios, igrejas, lojas de tintas, materiais para construção, portas e janelas, peças e acessórios (veja quadro), e, é claro, residências, que apesar de serem bem poucas, ainda resistem ao crescimento comercial. No entanto, as concessionárias e agências de carros novos e seminovos estão literalmente tomando conta da avenida.
Na esteira do sucesso dessa grande concessionária, que descobriu o filão do setor, vieram outros estabelecimentos, como o de Silvestre Amantini Neto e Edson Aparecido Merino, sócios em uma revenda de veículos seminovos.
Amantini conta que se estabeleceu na Nações há seis anos, três no ponto atual. No local, há várias agências do mesmo segmento, que não incomodam Amantini. Ele destaca que, apesar da concorrência ser forte, o setor tem espaço para todos. Para o comerciante, o carro usado é único, quer dizer, um automóvel não é igual ao outro.
Corredor
Antes da Nações se caracterizar como pólo de revenda de veículos, esse papel cabia à região do Centro de Bauru. No entanto, a cidade foi crescendo e cada vez mais surgiu a necessidade de espaço, para que os consumidores tivessem conforto e tranqüilidade na hora de comprar. “A Nações é o corredor da cidade, por isso nós a escolhemos” afirma Amantini.
O sócio, Edson Merino, destaca que a avenida Rodrigues Alves teve seus momentos de pólo de veículos. Ele mesmo ficou bastante tempo no local, mas seguiu a tendência e foi para a Nações. Mesmo assim, Merino ressalta que a Rodrigues guarda alguns “sobreviventes” do setor, que preferiram manter a tradição e permanecer ali.
Para ele, o fato da Nações ter mais condições de receber os consumidores pesou. As grandes agências perceberam isso e se mudaram, levando as demais para o mesmo corredor. Quem está há pouco tempo na avenida também afirma que é importante estar onde os demais estão. No caso, o comerciante Bruno Caldeira seguiu a lição à risca e há um ano vende veículos seminovos perto do Bauru Shopping e do trevo para a rodovia Marechal Rondon.
O fato de ter vários concorrentes com mais tempo de Nações à sua volta não incomoda Caldeira, pelo contrário, ele acredita que a relação de boa vizinhança com a concorrência favorece os negócios. “A gente mantém contato e acaba se ajudando”, diz.
A vantagem de estar em um ponto onde há várias lojas do mesmo segmento é o fato de o consumidor saber onde ir e estar sempre por perto. Para Caldeira, essa condição é boa, tanto para o consumidor quanto para o comerciante. A partir daí, depende muito do que cada um tem a oferecer para conquistar os clientes.
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Comerciantes e moradores destacam prós e contras
Se fôssemos entrevistar cada morador e cada comerciante da avenida Nações Unidas, provavelmente esta edição do JC seria pequena. Afinal, são quase seis quilômetros de extensão e o número de estabelecimentos comerciais é imenso. O de residências, nem tanto, mas alguns moradores ainda persistem.
É o caso de Geraldina Gravio, moradora da quadra 6 da Nações, há 30 anos. Vizinha de estabelecimentos comerciais, dona Geraldina não se incomoda com o barulho dos carros passando na avenida e já se acostumou com os problemas causados em dia de chuva forte. Nem mesmo a falta de outras casas próximas faz com que a dona de casa pense em sair dali. “Morar aqui é bom. Fica perto de tudo”, comenta.
Quem também não pensa em sair da Nações é o comerciante Carlos Eduardo Bormio, que há 22 anos mantém um estabelecimento especializado em peças e serviços automotivos. Mas a história de Bormio vai além dessas duas décadas. A oficina pertenceu ao pai dele, Argemiro Bormio, que ficou no local, no mínimo, outros 20 anos. Ou seja, são mais 40 anos de Nações Unidas, em um mesmo ponto.
Apesar de não querer nem ouvir falar em sair da Nações, Bormio se queixa de um certo descaso, principalmente com relação ao asfalto, muito maltratado, segundo ele. Outro ponto inesquecível para quem depende da avenida são as famosas enchentes. Na época das chuvas, quem mora ou trabalha na Nações ou imediações já sabe que vai ter de enfrentar o alagamento da via. “Até que melhorou, mas ainda precisa resolver o problema”, afirma.
O lado sul
Se na parte mais ao norte da avenida, o problema são as enchentes. No lado sul, a reclamação é com relação ao descaso e à falta de respeito de alguns motoristas, que abusam da velocidade no trecho próximo ao Ceagesp. Moradora há quatro anos da marginal da Nações, a manicure Carla Fernanda Cardoso Falcão afirma que o local é bom para viver, mas muito perigoso. Por isso mesmo ela pensa em mudar. “Eu mudaria daqui, com certeza, mas não tenho condições. O local não é ruim, mas é perigoso”, comenta.
Além do perigo do trânsito, Carla destaca o problema de infraestrutura da marginal da Nações, no Geisel. O local não tem asfalto e o mato toma conta da rua, principalmente em época de muita chuva. “A gente já reclamou, mas não tem jeito”, diz.
Da mesma forma o comerciante Benedito Pereira dos Santos reclama das condições do local. “Vim para cá pensando no futuro, é um investimento. Mas a prefeitura precisa arrumar o asfalto, investir neste pedaço da Nações”, ressalta. Mesmo com as queixas, ele aponta a avenida como importante para o desenvolvimento da cidade. “Ter um estabelecimento na Nações é muito bom, é um lugar de visibilidade”, destaca.
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O dia que a Nações explodiu
Não se trata de lenda urbana, nem de “história para boi dormir”. A avenida Nações Unidas, literalmente, explodiu. E mais, explodiu em uma sexta-feira, dia 13 de agosto, sendo os detalhes desta explosão tão bizarros como uma seqüência de filmes catástrofes. A sorte é que não houve vítimas. Para piorar a situação, a avenida explodiu no dia da visita de um presidente da República, em plena ditadura militar. O JC nos Bairros pesquisou e encontrou a história, publicada nas páginas do Jornal da Cidade, do dia 14 de agosto de 1976.
Conforme noticiou o JC da época, tudo começou com um acidente envolvendo um caminhão-tanque, na quadra 2 da alameda Otávio Pinheiro Brisolla. O veículo perdeu o freio e tombou na rua, despejando cerca de 20 mil litros de gasolina azul. O combustível escorreu pelas bocas-de-lobo da alameda, atingindo a rua Joaquim da Silva Martha e posteriormente a tubulação da Nações, onde passa o ribeirão das Flores.
As águas levaram o combustível até perto do viaduto por onde passa a linha férrea, onde funcionava a empresa White Martins, em frente ao estacionamento do Poupatempo. Ali, por volta das 12h50, começaram as explosões. Ao todo, foram quatro. Além da primeira ocorrida próximo à rua Inconfidência. A segunda ocorreu entre as ruas Marcondes Salgado e Presidente Kennedy, a terceira explosão aconteceu na esquina da Nações com a Rodrigues Alves, e por fim, próximo ao local onde atualmente está o Supermercado Paulistão.
Para se ter uma idéia de como ficou o clima em Bauru, com as explosões ocorridas na Nações, houve suspeita até de atentado político, algo inusitado já que, quando começaram as explosões o então presidente Ernesto Geisel já tinha deixado a cidade, com destino a Jaú, acompanhado do governador Paulo Egydio, que ocupava o Palácio dos Bandeirantes na ocasião.
Mesmo assim, as autoridades federais investigaram essa possibilidade. Nosso colega de JC, o editor de fotografia, Quioshi Goto, conta que o Serviço Nacional de Informação (SNI) “requisitou” os filmes das fotos feitas por ele na época. “Foi publicado no jornal, depois eles levaram os filmes”, lembra. Ou seja, os únicos registros daquela época estão nas páginas do JC, já que os negativos foram confiscados pelos agentes.
Outro colega de JC, o jornalista Leonardo de Brito, conta que tinha acabado de atravessar a avenida Nações Unidas quando as explosões ocorreram. “Eu estava vindo para a redação, tinha acabado de passar pela Nações quando ouvi o estouro. Tomei um susto”, conta.