Antigamente havia mecânicos que realmente consertavam seu carro. Desmontavam a parte com defeito, recuperavam a peça com problema e a repunham no lugar. Às vezes um pequeno ajuste era o suficiente, uma pequena folga era eliminada pela adição de calços ou uma limpeza e lubrificação resolviam os problemas. Bombas de combustível eram mecânicas e quando davam defeito, geralmente trocava-se o diafragma que costumava furar e pronto. Com o advento da eletrônica e da manufatura integrada, os conjuntos passaram a ser compostos de subconjuntos pré-montados e quando um componente apresenta falha, é necessário que se toque o conjunto todo. Isto foi fundamental para as novas linhas de montagem super agilizadas, onde os sistemistas enviam seus componentes pré-montados e que vão sendo agregados ao veículo, reduzindo os custos de produção (bom para eles), mas aumentando o de reparação (ruim para nós). Já vi sistemas elétricos que precisaram ser trocados inteiros, como uma alavanca de pisca, por exemplo, por defeito em um contato ou interruptor, e a brincadeira não sai barata. Os mecânicos menos especializados passaram a ser meros trocadores de peças, ao passo que os bons mecânicos ainda consertam de verdade. É sabido que existem picaretas que, dependendo da cara e do bolso do cliente, não pestanejam em dizer logo de cara que “precisa trocar a requenguela da grampola” e tascam uma bela fatura para cima do infeliz proprietário, quando uma pequena reparação poderia ter resolvido. Meu amigo Aquiles, por exemplo, sofreu uma pequena batida na traseira que danificou o sistema de escapamento de seu Civic. Ao mandar reparar o problema, constatou que havia trincado o coletor de escape, que é de ferro fundido. A oficina imediatamente sugeriu que a peça deveria ser trocada por outra original, que custa a módica quantia de R$ 1.500,00. Ao me consultar sobre o que poderia fazer, sugeri que ele entrasse em contato com meu vizinho José Luis, que tem uma ótima ferramentaria e que poderia soldar a peça. Não é qualquer um que solda ferro fundido, pois precisa de técnica específica. Diferentemente do aço comum, o ferro fundido precisa ser aquecido previamente ao rubro para que possa ser soldado. Foi usado um maçarico para aquecer a peça e solda TIG com eletrodo especial para ferro fundido para a solda. O resultado ficou perfeito, sem empenamento e custou a pequena fortuna de R$ 60,00...! Será que ele ficou contente?
Casos de bombas de combustível elétricas que param de funcionar são comuns, e mais comum ainda é a recomendação dos “mecânicos” para a sua troca imediata. Em certos casos pode ser apenas um mau contato nos pólos, ou um pequeno curto circuito interno ou interrupção de corrente, o que dá para consertar mesmo em carcaças blindadas. Existem profissionais que se especializaram em reparar estas bombas tidas como descartáveis, e que as revendem por R$ 150,00, enquanto que custam mais de R$ 600,00 quando novas. Só se joga fora se realmente estiverem queimadas, aí não justifica o conserto. Outros já acham que são deuses que pretendem fazer milagres, como soldar pontas de eixos, barras de torção e outros componentes de segurança que realmente precisam ser trocados quando apresentam problemas. Elas precisam estar perfeitamente alinhadas e balanceadas para evitar trepidação quando em rodagem. Se um semi-eixo entalhado perde os dentes, pode-se enchê-los de solda e fresar novamente, mas só se tiver equipamento adequado e o custo justificar, como no caso de recuperação de carro antigo, importado ou fora de linha, por exemplo. Mas o correto é substituir por uma peça nova, que é mais segura. O mesmo se dá com pneus e amortecedores, que podem ser recuperados (por recauchutagem ou remanufatura, respectivamente), mas o recomendado é se trocar por novos. Nunca acredite que uma mola tenha sido remanufaturada, que não dá para recuperar o cansaço da mola. Mola vencida deve ser trocada por outra nova, com as mesmas especificações originais. O máximo que os picaretas fazem é lavá-las e passar uma tinta por cima antes de revendê-las. Geralmente equipamentos elétricos podem ser bem recuperados, já os eletrônicos nem tanto. Outra coisa que não se recupera são as borrachas, que quando se gastam ou deterioram precisam ser mesmo trocadas. Fique esperto!
____________________
Sugestões para a coluna e perguntas à seção Correio Técnico devem ser enviadas ao e-mail automerc@jcnet.com.br ou à redação do Jornal da Cidade, na rua Xingu, 4-44, Higienópolis. É obrigatório informar nome completo, RG, endereço e contato (telefone ou e-mail).
* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.