Você já ouviu falar em marchetaria? Conhece alguém que produza bonecos de fantoche? E vasos de cerâmica? Já escutou comentários sobre um local onde só se encontram azulejos raros? Sabe onde fica um fabricante de móveis que faz as peças diretamente dos troncos das árvores?
Se você respondeu sim a algum desses personagens, parabéns, você é um dos privilegiados que sabem onde encontrar produtos peculiares, distintos, exclusivos. Se a resposta às perguntas foi não, não se preocupe, você faz parte de uma maioria que não tem a menor idéia de que há pessoas realizando essas atividades, ainda que, às vezes, eles estejam tão perto.
É lógico que o leitor não precisa se preocupar em saber onde encontrar produtos tão peculiares, mas não se pode negar a curiosidade que algumas atividades provocam nas pessoas, até porque esses artesãos que veremos nas próximas páginas são verdadeiros artistas, capazes de transformar alguns dos nossos sonhos em realidade.
Por exemplo, imagine uma casa toda feita de madeira, com uma vista belíssima, construída em uma enorme área verde e tendo bem no meio da sala uma árvore. Não é fantasia, ela está em pleno processo de construção pelas mãos do artesão João Gomes, o mesmo que fabrica móveis exclusivos, feitos diretamente nos troncos de árvore. A propaganda de Gomes é feita pelos próprios clientes que ele conquistou ao longo dos anos e seus produtos estão em várias cidades do Estado e do País.
Quem também se ‘esconde’ em Bauru é a família Costa Lopes, cuja cerâmica produz vasos ornamentais, filtros e moringas para água, como não se vê mais nos comércios convencionais. E pode–se dizer que os Costa Lopes estão realmente escondidos, em pleno bairro dos Tangarás, até porque, com a falta de placas nas ruas, mesmo que você tenha o endereço, é difícil de achá-los sem perguntar para quem mora no bairro. E olha que a cerâmica já existe há 20 anos.
O que dizer da “casa de bonecas” de Cidinha e Juliana. Cidinha, na verdade Aparecida Matias de Oliveira, e a filha, Juliana Cristina de Oliveira, estão há dez anos em atividade na Vila Independência, mas pouca gente sabe disso, a não ser os que já conhecem o trabalho, clientes e alguns vizinhos mais próximos. Afinal é difícil mesmo imaginar que aquela casinha de madeira esconde entre suas paredes uma verdadeira oficina de sonhos. As duas fabricam, entre outras coisas, bonecas, pesos para porta, porta-retratos e bonecos para teatro de fantoches.
Um pouco mais adiante, no Jardim Gaivota, está Gennarino Calabrese, o Rino. Este italiano nascido na província de Brescia, na região da Lombardia, veio para o Brasil com 11 anos e trabalhou em grandes empresas. Há oito anos, após se aposentar, resolveu se dedicar inteiramente à marchetaria, arte que aprendeu com o pai, marinheiro que nas horas vagas das viagens esculpia em madeira.
Além desses, outro artista se esconde por Bauru. Roberto Garcia é desenhista. Ele aproveita as horas vagas para desenhar, a nanquim, objetos, carros antigos e paisagens da cidade. Mas não é essa a peculiaridade de Garcia. O desenho se tornou apenas um hobby depois que ele começou sua atividade atual: comercializar azulejos e pisos fora de linha.
Garcia é proprietário do Asilo dos Azulejos, mas quem passa em frente à sua loja, na Coronel Alves Seabra, pensa tratar-se de um comércio de azulejos como outro qualquer. Ledo engano. O comerciante-desenhista possui um estoque de peças raras, algumas com data de fabricação da década de 1950, verdadeiras raridades.
A reportagem do JC nos Bairros foi atrás desses personagens para saber um pouco mais a respeito das atividades, que mesmo desconhecidas da maioria da população contribuem para transformar Bauru em referência de atividades bem peculiares, como a que eles exercem.