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Pensando no futuro


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Estou na escola há 40 anos, desde os sete. Devo ser bem burrinho, pois ainda não consegui sair... Justifico: comecei como aluno e continuo até hoje, mas também aprendo muito quando leciono. E faço isso há 17 anos. Essa é uma de minhas atividades, que me fazem, às vezes, ficar 24 horas “no ar”. Isso para ter meus pés bem firmes no chão, ajudar a concretizar os sonhos dos que dependem de mim, e manter a cabeça erguida, para não perder os meus de vista.

Nesse período, posso contar nos dedos das mãos os dias que faltei às aulas. Mas todo semestre reserva um problema para algumas disciplinas: a concentração de feriados num determinado dia de semana. Em 2007, o “eleito” foi sexta-feira! Para compensar, preparei atividades híbridas: presenciais e a distância. Mas, como as disciplinas são presenciais e nem todos os alunos têm acesso à Internet fora da Universidade, os encontros presenciais tornaram-se imprescindíveis. E assim era, nas sextas, até às 23:30. Foi quando o celular tocou e um mais que amigo me alertou que eu estava intimado a comparecer à reunião de comemoração dos 25 anos de formatura de nossa turma!

Seria uma oportunidade para rever colegas que há muito eu sequer ouvia falar. Mas havia um problema: a reunião seria numa sexta-feira, à noite, justamente no dia programado para a avaliação! Quando eu falei do empecilho, meu amigo passou a desfiar um rosário de razões para eu ir: que aquela data era única; que conseguira juntar “figurinhas carimbadas”; que o dia e horário era a única opção que conciliara disponibilidades de pessoas e local; que não falaria mais comigo se eu não fosse. Brincadeira, eu espero...

Tendo em vista as circunstâncias acadêmicas, avisei que seria difícil eu ir, mas que pensaria no assunto. Ocorre que, na sexta anterior ao evento, uma maratona de bancas de TCC - Trabalho de Conclusão de Curso, vários dos quais eu era orientador, passou do horário, prejudicando as aulas regulares. Quando meu amigo voltou a ligar eu disse que não teria mais jeito. Pedi que ele desse um abraço a todos e desejei boa festa, mas estava nítido em seu tom de voz que ele ficara muito chateado comigo. No dia do encontro, durante a aula, meu celular tocou... Eu havia esquecido de desligá-lo, e me apressei em fazê-lo, pois estávamos em meio à avaliação dos trabalhos.

A aula terminou tarde, como era previsto, e o cansaço era intenso. Mais tarde, ao religar o telefone, vi que a chamada era de meu amigo. Já era tarde para retorná-la... Antes de dormir, no entanto, refleti sobre a situação: Entre recordar meu passado e ajudar a preparar o futuro de outros, eu decidira pela segunda opção. Foi pena não ter ido, mas não me arrependi. Espero que meus colegas, e principalmente meu amigo, não tenham pensado que minha ausência foi sinal de descaso. É que a docência exige, suave e irresistivelmente, um compromisso com os sonhos das novas gerações.

O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é escritor, engenheiro e professor universitário - www.algbr.hpg.ig.com.br - e-mail: adilson@unisantos.br

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