São Paulo - A reintegração de posse em uma favela na marginal Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, provocou um trânsito recorde na cidade ontem pela manhã. Os reflexos foram sentidos durante todo o dia, com diversos pontos de congestionamento espalhados pela cidade. Para a retirada de 70 famílias e 140 barracos da favela Real Parque, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e a prefeitura autorizaram a interdição da pista local da marginal Pinheiros no sentido Interlagos, da rua Pedro Avancini à ponte Ary Torres.
A liberação ocorreu só às 18h. Às 11h30 eram 153 quilômetros de congestionamento ou 18,9% dos 811 quilômetros monitorados em toda a cidade.
O recorde anterior, um décimo menor, foi registrado em 3 de agosto, às 9h30 da manhã, por causa da paralisação do metrô em decorrência da greve dos metroviários.
Também contribuiu para agravar o trânsito a interdição das três faixas da via expressa por volta das 10h por 30 moradores que protestaram contra a derrubada dos barracos. Mais de 70 homens da Polícia Militar usaram bombas de efeito moral e gás pimenta para dispersar os manifestantes. A via foi reaberta às 10h15. Houve confronto e os manifestantes atiraram paus e pedras - dois carros da PM foram danificados.
Também ocorreu conflito com policiais dentro da favela. Ninguém foi preso, mas moradores disseram ter visto quatro pessoas feridas por balas de borracha. A PM nega tê-las usado na ação. A desempregada Maria Lúcia Lopes da Silva, 38 anos, grávida de oito meses e mãe de três filhos, passou mal e foi levada ao hospital. “Estão jogando bomba aqui dentro. Tem muita fumaça. Eu já perdi um filho, não quero perder outro”, grita va.
Os moradores foram avisados da remoção às 6h por um oficial de Justiça que tinha uma liminar concedida à Empresa Metropolitana de Água e Energia (Emae), ligada à Secretaria do Estado de Saneamento e Energia, para a reintegração. Tiveram duas horas para retirar seus pertences antes que as retroescavadeiras derrubassem os barracos. O terreno invadido mede 17.300 metros quadrados e está avaliado em R$ 5,5 milhões.
Segundo a subprefeitura, estava ocupado havia pelo menos três meses por 140 barracos, mas só 40 deles estavam habitados. Quinze caminhões da prefeitura recolheram os pertences. O subprefeito do Butantã, Maurício Pinterich, afirmou que foram oferecidos albergues. A Emae diz que deu um mês de hotel e passagens de ônibus para quem quis voltar à cidade de origem. Às 9h, os 12 quilômetros da marginal Pinheiros até a marginal Tietê estavam congestionados e, às 11h, os 23 quilômetros da marginal Tietê no sentido Castelo Branco registravam lentidão. As rodovias Bandeirantes e Ayrton Senna tiveram 5 quilômetros de congestionamento na chegada a São Paulo.
O caminhoneiro Marcelo Ribeiro, 48 anos, que saiu da Casa Verde às 9h, conseguiu passar pela interdição às 12h15. “Quando percebi o tamanho da encrenca não dava mais para sair”, disse. “Será que não podiam fazer isso no fim-de-semana? Tinha que ser numa terça-feira de dezembro, que já é complicado?”, questionava a moradora do Real Parque Cristina Rodrigues, 23 anos.