Cultura

Artigo: Confidências de uma gata indignada


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Meu nome é Juju, sou siamesa, nasci em 3 de março de 1997, num sítio de Santa Izabel, povoado pertencente a Arealva. Portanto, para a família dos gatos, sou uma senhora idosa. Quando era nenê, meus donos foram buscar-me e trouxeram-me para Bauru.

Morei muitos anos na região da Praça do Rotary. Embora fossem altos os muros que cercavam a nossa casa, pulava-os sempre que queria e ia conhecer a vizinhança. Ultrapassava os muros, mas fui castrada. Daí...

Na convivência local, tive muitos “arranca-rabos” com outros felinos, principalmente os “de rua”. Dos arranhões sofridos, nenhum foi grave. Só que me levavam (e levam) no Dr. Bezerra, para tomar vacinas, vermífugos e outras bobagens. Sofro espetadas, desce comprimidos por minha goela abaixo. Um horror!

Na nossa casa, convivi com outros gatos e apesar de alguns contratempos, nada que não pudesse ser consertado. O lugar onde morávamos tornou-se barulhento e os donos resolveram mudar de residência. Eu estava então com 8 anos, no calendário humano.

Ah! Esqueci de contar. Nós, gatos, adotamos uma pessoa da casa como cliente preferencial! Eu escolhi o dono. Ciuminho aqui, ciuminho ali, quando ele acariciava outros animais, a contragosto eu suportava, armando uma cara carrancuda. Pra bom entendedor...

Mudamos para um condomínio, um sítio. Mas eu, como todos os gatos, era apegada à casa anterior. Imaginem, levaram-me presa numa gaiola e soltaram-me num quarto, onde fique durante três dias, antes de reconhecer o novo pedaço. Um dia, para felicidade dos meus donos e minha desconcentração, apareci numa área e vi aquele quintal imenso. Sempre com uma pata atrás, contemplei o novo local de minha morada. Depois vaguei e acostumei, explorando o novo território, cheio de mato entre uma e outra casa entremeando-o. Ou vice-versa. Assim, de passada em passada, marquei o meu pedaço.

Esqueci de contar outra coisa. Meus donos têm um filho e uma filha. A sapeca da menina, contrariando meus prognósticos soberanos, um dia apareceu com um gatinho amarelo, todesquini, oriundo de São Paulo, onde ela mora. Meus ciúmes renasceram. Para minha sorte, o gato novo desapareceu. Os donos foram procurá-lo pelo mato e nas construções do condomínio e não o acharam. Também pudera! Onde já se viu um gatinho novo sair passeando sozinho?

Uma semana depois, um avizinha abelhuda, parente de minha dona, achou o desaparecido nas proximidades de um riacho local. Todos ficaram contentes com o retorno do atrevido, menos eu, obviamente. Quando com ele estava conseguindo definir o território e a convivência possível, veio um “Dia das Mães” e a sapeca trouxe da Capital – presente para a dona – uma gatinha amarela e branca. Isso foi demais! Com relutância, o tempo permitiu que eu a aceitasse com ressalvas felinas, muitas ressalvas...

Ai então aconteceu o pior! Meu mundo quase desabou! Não é que minha dona, dando de presente para o meu dono (inconcebível!), arrumou um cachorro, além de tudo, mestiço tibetano! Não suportei o choque e sumi do pedaço. Fugia de meu dono quando ele procurava-me. Escondia. Mas, por ele, com o tempo voltei. Agora ele tem de administrar os conflitos, pois com cachorro eu não convivo. É uma lambeção insuportável. Afinal, deveriam respeitar os animais idosos, dando-lhes um atendimento preferencial. Ou, ao menos, consultá-los, quando trouxessem novos moradores para nossa casa!

Irineu Azevedo Bastos Escritor/ historiador e colaborador de Ju Machado – Escritório de Arte

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