Certa noite eu fui dormir, estava muito cansado
Mal preparei minha cama e meu pijama trocado
Deitei fui adormecendo com o corpo mal arrumado
No sono estava sonhando ali passei maus bocados
Acordei muito tristonho por saber que aquele sonho
Era coisa do passado
Sonhei que no dia-a-dia eu vivia muito apertado
Tinha filhos pra criar pois era um homem casado
Pra piorar minha vida eu fiquei desempregado
Fugindo da depressão tive um plano bem bolado
Peguei anzol, vara e facão fui pescar num ribeirão conhecido e afamado.
Cheguei na beira do rio bem antes do escurecer
Era um lugar tão bonito que nem dá pra descrever
A água era pura e limpa que se podia beber
Cipós pendentes das árvores com o vento sempre a mexer
Da mata bem preservada vi frutas precipitadas
E muitos peixes a comer
Usei uns paus pontiagudos pra demarcar um espaço
Estendi um encerado pra proteger do mormaço
Com fubá, farinha e água massinha que eu mesmo faço
Fui pescando lambaris jogando dentro de um saco
Sozinho ali no barranco o meu sossego foi tanto
Quase fui por água abaixo.
Nem bem o sol se escondeu por de traz do rio batalha
Ao recobrar os sentidos vi a mata envolto em mortalha
Vi que nas copas das arvores pousava um bando de ‘graias’
Como estava escurecendo voltei usar minhas traias
Acendi o lampião e fiz um fogo no chão
Fiquei firme na tocaia
Com a fumaça em meus olhos, clarão do fogo e o calor
Fui revirando na cama quase sofrendo um torpor
Minha mulher vendo aquilo mi sacudiu e me acordou
Sentei na cama assustado minha mulher me abraçou
Acordei desenxabido com nossos rios poluídos sem peixe e sem pescador.
Lázaro Carneiro é pescador e contador de histórias