Articulistas

Agora sei o que é Natal


| Tempo de leitura: 4 min

Eu sempre tive tudo. Tive clima de Natal em minha família, ganhei meus presentes e a mesa na noite de 24 de dezembro sempre foi muito farta em minha casa. A família se reunia, a casa se enfeitava e a ansiedade só se manifestava nas horas antes de deitar, após ter colocado o par de sapatos na janela, para ali o Papai Noel depositar o presente que pedira. Eu acreditei nisso até nem sei quantos anos, pois meus pais e tios insistiam na fantasia e de qualquer forma acho hoje que essa fantasia funcionou e de um modo geral faz com que eu guarde até hoje a bela imagem da data.

Confesso que não fui criado num ambiente onde a memória do Aniversariante fosse cultuada como o gesto mais importante do Natal. Mas também não era assim tão descrente do fato cristão que deu origem a tudo isso. No geral, Natal pra mim sempre foi dia de festa, de família reunida e as ruas se prestando, no dia 25 de dezembro, a crianças exibirem o que o bom velhinho lhes trouxera de presente. Esse momento provocava em mim um misto de contentamento e frustração, pois via crianças com suas maravilhosas bicicletas, mas também via as mais pobres com um saco de balas ou no máximo meninos com um estilingue que ele mesmo fizera e se presenteara. Triste era a corrida que essas crianças davam, de casa em casa, com a carinha exibindo um desejo de “também quero participar dessa festa”.

Mas, no dia seguinte, ia eu correndo ver o que tinha no par de sapatos e geralmente estavam ali os brinquedos que pedira. Curtia-os, brincava um pouquinho, mas logo voltava a sonhar com outros desejos, geralmente inatingíveis ou inacessíveis à minha realidade. Esse pecado acompanhou-me a vida toda. Tenho isso claro e identificado aqui, nesta cabeça que tem muito a aprender e a ser corrigido.

Com o passar do tempo, o sentimento de quase realização ou de “ter ganho quase tudo o que sonhara” foi fazendo de mim uma pessoa muito longe de ser realizada por inteiro. Acredito que essa frustração também foi provocada pelo fato de ver na rua, na manhã do dia 25 de dezembro, o semblante de tantas crianças que nada ganharam. Acho que funcionava assim: embora eu ali com os meus presentes, ainda assim faltava alguma coisa, que no caso era ver todos com seus presentes trazidos pelo Papai Noel.

Os anos se passaram e agora, vivendo o Natal, a partir do recebimento dos cartões dos amigos e parentes, com o clima em casa e nas ruas a confraternização em si, enfim com tudo que a data merece pra ter a comemoração completa, o sentimento de falta alguma coisa volta a bater forte em mim, em meu coração.

E neste ano procurei fazer minha tarefa de casa, talvez na condição de Papai Noel, pois, já tendo netos, quero passar a eles e todos daqui o clima completo e perfeito de Natal; da preparação do ambiente ao espírito religioso, com absoluto respeito que Jesus Cristo merece. Em todas minhas mensagens tenho procurado enfatizar esse aspecto. Já fui à missa e até comunguei pra ficar o mais sem pecado possível, visando merecer a plena felicidade própria de um dia de Natal.

Vem dando certo, a não ser a recaída com os meus pensamentos no pecado de “falta alguma coisa”. Algo próximo à inveja. Inveja daqueles que têm tudo (na minha visão), igual à que deviam sentir aquelas crianças que batiam à minha porta, com suas carinhas de tristeza, pedindo pra fazer parte da festa.

Esta noite acordei chorando e tive que dar explicações à minha esposa. Pois é, por mais que tenha feito de tudo para ter e proporcionar um Natal completo aos meus, o sentimento de “está fazendo falta” vai batendo cada vez mais forte em minha mente e em meu coração. Claro que sei do que se trata, pois perdi minha mãe neste ano e sua falta é exatamente a razão desse sentimento de tristeza no Natal deste ano. Tenho tudo e todos, menos ela, que sempre amei e amarei por toda minha vida. E por mais que tenha que agradecer a Deus pelas riquezas recebidas, ainda cometo o pecado capital da inveja daqueles que têm a mãe ao seu lado.

Tenho que aprender que nada é completo nesta vida, assim como nada é para sempre. Tanto na felicidade quanto na tristeza. E mais do que nunca refleti sobre a letra de uma linda e triste música de Chico Buarque, que diz assim:

“Oh, pedaço de mim, Oh, metade afastada de mim, leva o teu olhar. Que a saudade é o pior tormento, é pior do que o esquecimento, é pior do que se entrevar Oh, pedaço de mim, oh, metade adorada de mim, leva os olhos meus... que a saudade é o pior castigo e eu não quero levar comigo, a mortalha do amor... Adeus”.

O autor, Renato Cardoso, é publicitário e delegado regional de Turismo

Comentários

Comentários