Estamos vivendo mais um Natal, de mais um fim de ano e diversos fatores, como os meios de comunicação, o comércio, as luzes, as guloseimas, nos colocam em um clima muitas vezes nostálgico. Mas particularmente creio que sejam as canções natalinas que melhor delineiam tal atmosfera. Em todo mundo uma das canções mais ouvidas neste momento é “Happy Xmas (War Is Over)”, composta por John Lennon e Yoko Ono. Sua versão em português, “Então é Natal”, é da autoria de Cláudio Rabello, e é essa canção que embalará as tímidas idéias contidas neste artigo.
Escolhi essa canção, pois já de início ela nos situa em um determinado contexto: é Natal. Tenho por certo que esta afirmação não soa com sentido uníssono entre nós. Creio que ela toca a cada um de maneira diferente devido à singularidade de nossas experiências e histórias de vida, o que abre um enorme leque de formas de sentir e agir em tal momento. Ainda mais que após tal afirmação a canção nos questiona: "O que você tem feito? O que você fez " (durante o ano, aos outros e a você)?
Essa atmosfera de sensações e questões pode trazer às pessoas certa inquietação e mobilizá-las para fazer algo de “importante” antes que o ano termine. A mais comum das ações praticadas por muitas pessoas nessa época do ano é a caridade. Tenho discutido que algumas formas de caridade perderam seu caráter idôneo. Nessa nossa “sociedade do espetáculo”, nem sempre o que parece é. Por isso façamos um pequeno exercício.
O que uma pessoa que dá uma “moedinha” no sinal pode estar dizendo a quem recebe tal ajuda? Diversas coisas, mas entre elas poderíamos encontrar algo como: 'Tome esse dinheiro e continue aí. Aí é o seu lugar! Não há espaço na minha sociedade, no meu mundo para você'.Ou então: 'Tome isso e permaneça aí, você e sua família. Afinal, preciso manter um exército de miseráveis para poder controlar e nivelar por baixo os salários de meus funcionários'.
E o que dizer da ação das pessoas que só aparecem nos bairros pobres na época do Natal levando para as famílias, para as crianças, algum presente? Pergunto: por que não vão entregar tais presentes em condomínios de luxo ou aos filhos dos figurões da cidade? A resposta que já ouvi dezenas de vezes é: porque eles já têm brinquedos e podem pagar por outros mais. O trágico dessa perspectiva é que as pessoas entregam os tais presentes como se eles fossem gratuitos, sendo que na verdade aquelas crianças pagam um preço altíssimo por tal agrado, qual seja, a indiferença, o esquecimento, o menosprezo durante todo o ano vindouro. Então não devemos mais ser caridosos? Pelo contrário, entendo que cada vez mais devemos partilhar o que temos, não só os bens materiais, mas também as experiências que nos fazem cada vez mais humanos. Assim possivelmente poderemos contribuir para que as barreiras da desigualdade social se estreitem, não só em uma época específica do ano, mas durante todo ele. Fazendo com que deixemos de apenas dar presentes e nos tornemos cada vez mais presentes.
O autor, Sérgio de Oliveira Santos, é psicólogo, vocalista da Banda Opus