No dia primeiro do mês de novembro, por volta de 13h30, quando eu passava pela Rodovia Anhanguera, perto de Sumaré-SP, sintonizei o rádio do meu carro na Rádio Aleluia, da Igreja Universal, que transmitia uma campanha de arrecadação de recursos financeiros a fim de se dar continuidade à programação da emissora voltada àqueles que sofrem. O bispo Edir Macedo liderou o chamamento.
Depois de fazer inúmeras considerações sobre a necessidade de se honrar a Deus através de ofertas e dízimo, como uma das condições para que o Senhor honrasse ao fiel, provocou e desafiou os católicos, evangélicos e espíritas nos seguintes termos: o que a religião católica tem feito por você? Nada! O que a Religião Evangélica tem feito por você? Nada! O que a Religião Espírita tem feito por você? Nada!. Reiterou, em seguida: o que o Espiritismo tem feito por você? Nada!
Não concordo com tais afirmações. Isto porque, em que pese o nosso país contar com muitas pessoas carentes, tem primado pela consolidação da liberdade aliada à busca incansável da convivência respeitosa e responsável entre os diferentes. Para tanto, se torna indispensável o cultivo do mais profundo respeito à diversidade como fator preventivo ao combate à violência, inclusive ao ódio e à discriminação. Afinal, os noticiários de hoje e a História comprovam os horrores oriundos de ideologias centradas no radicalismo, envolvendo a eugenia e a religião.
Ademais, é razoável indagar: como pode alguém que vive basicamente de Religião ignorar a revolução evangélica a partir dos protestos de Martinho Lutero (séc. XVI) que impulsionou a escolarização, a popularização da Bíblia e a expansão da fé cristã aos humildes? E como fica a bem sucedida revolução social cristã da Igreja Católica? E a revolução do pensamento científico, filosófico e religioso pelo Espiritismo? O que pode causar tamanha dificuldade a um homem tão inteligente?
Antecipadamente, sou cristão sincero e sei muito bem da importantíssima missão dos operosos e revolucionários trabalhadores da Igreja Universal do Reino de Deus e da grande responsabilidade que está nos ombros do Bispo Macedo (Revista Veja, Edição 2029, de 10 de outubro de 2007). Por isso é que me sinto à vontade para descartar má-fé de minha parte e também do Bispo Edir que merece muito carinho, apreço e muito respeito.
Entretanto, a minha resposta está pautada na mesma liberdade de expressão que ampara o querido religioso-empresário, permitindo-me extrair do episódio algumas deduções explicativas, tais como: falta de conhecimento mais profundo e adequado acerca das questões ligadas às três denominações religiosas e fascinação. Esta se refere a processo em que espírito maligno “consegue inspirar-lhe uma confiança cega, impedindo de ver a mistificação e de compreender o absurdo do que escreve, mesmo quando este salta aos olhos de todos” (Kardec, Allan, Livro dos Médiuns, Lake Editora, p. 275, tradução de J. Herculano Pires).
Adianto, pois, na qualidade de “pecador” como qualquer outro ser humano (Marcedo, Edir, Doutrinas da Igreja Universal do Reino de Deus, primeira Edição, página 73, 1998), que a vítima desse tipo de processo obsessivo somente consegue a libertação se admitir as próprias falhas e se esforçar por corrigi-las pela renovação, jogando os pensamentos ruins na “lixeira” (Canal de TV aberta Record News, programa Coisas de Mulher, 10/11/07, 16h40).
Entretanto, é bom não olvidar que no caso específico da fascinação esta deixa na vítima, com forte predisposição, para tanto, uma sensação de poder ilimitado, fazendo com que o influenciado fique completamente embevecido e portador de coragem ilimitada, a tal ponto que passa, mesmo que involuntariamente, a gostar desse “doce” enlevo vibratório; mas, muito cuidado: se a vítima teimar e recepcionar idéias de vingança, por exemplo, registro desde já que estará tornando o terreno ainda mais fértil para a atuação dos gênios “mafiosos da espiritualidade” que vivem ocultos e querem ver o “circo pegar fogo”.
Finalmente deixo aqui registradas as sérias advertências feitas pelos nobres Espíritos que nos legaram o Espiritismo (obra citada, p. 275): “Dissemos que as conseqüências da fascinação são muito mais graves. Com efeito, graças a essa ilusão que lhe é conseqüente o Espírito dirige a sua vítima como se faz a um cego, podendo levá-lo a aceitar as doutrinas mais absurdas e as teorias mais falsas como sendo as únicas expressões da verdade. Além disso, pode arrastá-lo a ações ridículas, comprometedoras e até mesmo bastante perigosas”; e agrega uma significativa nota do tradutor: “A fascinação é mais comum do que se pensa.
No meio espírita ela se manifesta de maneira ardilosa através de uma avalanche de livros comprometedores, tanto psicografados como sugeridos a escritores vaidosos...”
José Quaglio - técnico agrícola, eletrotécnico, advogado, teólogo, pedagogo e licenciado em filosofia