Por ocasião da preparação do Primeiro Congresso Brasileiro de Alfabetização, comecei a refletir sobre a exigüidade das vagas escolares e indagar sobre minha escolaridade primária. Guardara vagas lembranças sobre o processo de inscrição que não garantia a vaga.
Era preciso permanecer de pé, em fila, por ordem de altura, esperando, que uma voz metálica, pronunciasse os nomes das felizardas. As pessoas chamadas se dirigiam às salas de aula e tinham suas matrículas garantidas.
Como ocorrera com minha irmã Laura, dois anos antes, a voz metálica não pronunciou meu nome: não tinha vaga para eu estudar. Para mim, tinha sido doloroso permanecer de pé naquele pátio cinza. A recompensa poderia vir através daquela voz, mesmo que fria e metálica, desde que garantisse o privilégio de uma vaga nos bancos escolares.
No suspiro de minha irmã Catarina percebi um misto de tristeza e determinação. Tomou-me pela mão e guiou-me, resoluta, escada acima. No caminho, uma sala cheia de livros enfileirados encheu-me os olhos de encantamento. Quis parar para ver melhor, mas fui levada através das escadarias, por um longo corredor até uma sala de aula.
Essas lembranças eram poucas e vagas, talvez apenas aquelas carregadas pela afetividade. A preparação do Congresso me instigou uma consulta a minha irmã Catarina. Foi quando ela me contou que levou-me até uma sala de aula de 1.º ano primário.
- Professora, a Senhora poderia deixar minha irmãzinha na sua classe, só como ouvinte, ela já sabe ler e não faz bagunça. Se precisar trago uma cadeira de casa.
Assim, graças à determinação de minha irmã, ganhei um lugar nos bancos escolares na sala da Professora Ivone Garcia.
Catarina já havia me alfabetizado em casa, permitindo-me a leitura de três livros. De vez em quando, surrupiava algum livro de matemática de meus irmãos mais velhos e punha-me a decifrar as intrincadas figuras geométricas que me seduziram para sempre. Um livro de geografia atirara-me ao mundo mágico da astronomia e da história da ciência.
Catarina teve 6 filhos no Paraná. Grávida da sétima filha, mudou-se para São Paulo e fez uma longa via-sacra em busca de vagas para seus filhos, nas escolas públicas. Foram longos meses percorrendo as mais intrincadas burocracias, retornando várias vezes para indagar sobre uma possível desistência que permitisse uma vaga para um de seus filhos.
Demorou muito tempo para entender o alcance da vaga escolar corajosamente conquistada para mim e minha irmã, assim como a decidida busca de vagas para seus filhos. Refleti muito sobre isso.
Com que determinação ela exigiu que todos os filhos freqüentassem escola de língua japonesa e fizessem curso superior.
Ela mesma, tendo cursado apenas o primário, certamente sentira as dificuldades da pouca escolaridade, mas também como a filha mais velha, bebera a cultura de nossos pais, imigrantes japoneses, sempre preocupados com a escolarização dos filhos.
Nossa geração ainda não percebeu o alcance dessa decisão pelos estudos. A terceira geração muito menos. Assim, vão se perdendo valores inestimáveis. No século XVI a maioria da população japonesa já era alfabetizada. No século XX, os imigrantes, mesmo nas mais inóspitas paragens, apressaram-se a instalar uma escola para os filhos.
Pode parecer piegas comemorar o Dia do Professor, mas sempre haverá lugar para o reconhecimento e a gratidão.
À Catarina, minha eterna gratidão! No último dia do ano, Catarina se despediu de 2006 e de todos(as) nós.
A autora, Iolanda Toshie Ide, é colaboradora de Opinião - e-mail: iolanda.ide@ig.com.br