Se você é fã de Harry Potter deve ter muita raiva do primo Duda, aquele garoto mimado que apronta todas e joga a culpa no bruxinho. Pois é, durante muito tempo ser filho único foi sinônimo de mimos, exageros por parte dos pais e avós, que faziam de tudo (em alguns casos ainda fazem) para agradar o único herdeiro.
Se no passado ter apenas um filho não era o normal, já que as famílias exageravam e tinham, como diriam as vovós “um penca de filhos”, hoje em dia muita coisa mudou. A figura do filho único é cada vez mais comum nas famílias brasileiras.
Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que, atualmente para cada grupo de 100 mães, 31 têm apenas um filho e não pretendem ter outro. Há dez anos, quando foi feita a última pesquisa, esse número era de 25 para cada 100 mulheres.
A mulher trabalha mais fora de casa, a vida corrida e cada vez mais cara podem explicar os motivos para que o número de filhos exclusivos cresça. Para a socióloga Maria Antônia Vieira Soares, do Departamento de Ciências Humanas da Unesp de Bauru, além dos motivos apontados pela pesquisa, há também a questão educacional dos filhos como fator inibidor para se ter mais de um ou dois.
Mas o que dizem os pequenos? O que esses herdeiros acham de serem únicos? O JC Criança foi atrás de alguns desses filhos únicos para contarem suas experiências e falarem das vantagens e desvantagens de não ter irmãos.
____________________
Família grande? Não ia dar...
Se tem alguém que não sente falta de um irmãozinho é Karina Paez, 9 anos. E ela não tem vergonha de dizer isso. Pelo contrário, quando a mãe de Karina, a fonoaudióloga Erika Paez, pergunta o que a filha acharia de ter uma família grande, a menina dá um sorriso e comenta: “Não ia dar, não”.
Nem se pode falar que Karina seja egoísta, pelo contrário. A casa da menina vive repleta de amiguinhos, que adoram ficar na piscina e brincar com os brinquedos dela. “Os amigos acabam substituindo os irmãos”, comenta a mãe. E Karina completa: “Do jeito que está, está bom”.
Como rainha absoluta da casa, Karina acaba tendo algumas regalias. Além da escola, é balé, natação, música e várias outras coisas que não seriam possíveis se houvesse mais alguém com quem dividir. “Ah, ia ter que cortar muita coisa, porque com dois é bem mais caro”, diz a mãe.
É por essas e outras que a menina afirma que um irmão não faz falta, afinal, tem tudo o que quer e o que não quer também, mas nem pense em mimo. “Minha mãe não dá tudo que eu peço, mas assim é legal”, comenta. O fato de não ter um irmão tornou mãe e filha grandes amigas. “Hoje, ela participa mais das conversas e ajuda a tomar as decisões”, destaca Erika. E Karina é feliz assim? É ela mesma quem responde: “Claro” .
____________________
Ser filho único é bom, mas nem tanto
Para Lucas Felipe Andrade Galvão, 12 anos, o fato de ser filho único representa mais atenção por parte dos pais, afinal, o carinho não é dividido com ninguém. Por outro lado, ele reconhece que, às vezes, falta alguma coisa para completar sua vida. Um irmão? Pode ser. “Me sinto bem, porque de certo modo ganho mais atenção, mas não gostaria de ser filho único. Às vezes, um irmão faz falta”, conta.
O garoto comenta que a ausência do irmão não é tão sentida no período de aula, já que os amigos de escola preenchem esse espaço. “Durante a aula é legal, que tem um monte de gente em volta e eu me sinto bem. Mas quando chegam as férias fica mais difícil e eu me sinto mais sozinho”, afirma.
A falta de alguém para brincar não é suprida nem pela conversa com os pais. “Conversa com pai e mãe não dura muito, não é mesmo?”, comenta. Lucas conta que depois de conversar tudo, o vazio volta. Infeliz? Nem de longe. Mesmo com essa vontade de ter alguém para dividir o espaço da casa, ele não se sente infeliz. Afinal, a atenção redobrada dos pais compensa.
____________________
Um irmãozinho ia bem
Gabriela Rocha, 5 anos, é filha única por parte de mãe. Mas “adotou” o irmãzinho que o pai teve no segundo casamento. “Eu tenho um irmãozinho. Ele é bebê ainda”, diz a pequena. Além do meio-irmão, Gabriela, considera os filhos da esposa do pai como seus irmãos também e diz que já pediu um irmãozinho novo para a mãe. A única coisa que Gabriela não falou para o JC Criança foi a resposta da mãe, mas tudo bem, para ela, o recado está dado.
De férias da escola, a menina se diverte com a amiguinha Giovana, de 3 anos. “Queria ter um irmãozinho para dividir os brinquedos”, afirma. Será? Mas não duvide de Gabriela. Ela falou sério quando diz que não tem problemas em dividir com os outros. Enquanto o irmãozinho não vem, ela se diverte com os amigos da escola e com os irmãos “adotados”, e vai sendo feliz. Única e feliz.
____________________
Amigas fazem a diferença
Há vantagens e desvantagens em ser filha única. A vantagem é que você tem tudo o que quer e não precisa dividir com ninguém, e a desvantagem é porque você tem tudo que quer e não pode dividir com ninguém. Entendeu? Para Natália Gonçalves, 13 anos, a explicação é mais do que lógica.
Filha única, que passa a maior parte do tempo com os avós, Natália compensa a ausência de um irmão ou irmã com as amigas de colégio, em sua maioria filhas únicas como ela. “É bom ser filha única porque você tem todas as suas vontades realizadas, mas é ruim porque nunca tem alguém para brincar e conversar em casa”, diz.
Para não se sentir totalmente solitária, as amigas da escola acabam se tornando as irmãs, até porque, como a própria Natália afirma, a grande maioria também não tem irmãos. “A gente tem essa relação por causa disso, mas quando não estamos na escola fica mais difícil, fica meio solitário”, lembra.