Cultura

Sobre mundos: Esforço e sucesso

Por Padre Beto* | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Em um debate sobre literatura e outros assuntos entre os autores Marçal Aquino e Marcelo Rubens Paiva, o primeiro foi questionado se não tinha medo da pirataria. Aquino foi taxativo em dizer que talvez a única área que não temia a pirataria era a literatura. Afinal, a leitura no Brasil não é ainda um hábito presente no cotidiano do brasileiro e acrescentou que escrever, para ele, era mais um prazer. A literatura, segundo Marçal, não é valorizada em nosso País e os autores não possuem sucesso financeiro. Somando a isso, o seu trabalho exige solidão, esforço, dedicação e abdicação de muitas coisas. Com seu testemunho, ficou claro que, para o autor, ter sua obra lida é uma grande satisfação, mas o simples fato de escrever é a atividade que o realiza.

Todo mundo pensa no sucesso. Melhor dizendo, a sociedade de consumo nos convence a todo custo que temos que ter sucesso (e este é sinônimo de dinheiro), o que deve nos trazer a felicidade tão sonhada por todos. Porém, o que a sociedade de consumo não nos mostra é que a felicidade, na verdade, é uma ilusão, que o sucesso nem sempre está associado ao dinheiro e que o esforço que está por traz do verdadeiro sucesso é algo fundamental. A conseqüência é que todos acabam desejando o sucesso que, por exemplo, aparece na mídia, mas poucos se dedicam realmente para alcançá-lo. Ninguém pensa que o sucesso, em primeiro lugar, precisa ser autêntico.

Em outras palavras, ele precisa ser o meu sucesso, a minha realização pessoal. E muitos se iludem não querendo enxergar que a abdicação de tempo de lazer e de outras coisas no momento prazerosas é pré-requisito para se alcançar aquilo que realmente se deseja e que dá satisfação de viver. O sucesso autêntico necessita de suor e tempo de dedicação. Porém, este esforço e sacrifício são extremamente amenizados quando realizamos ou almejamos algo que nos dá realmente prazer. Este é o real segredo para nos sacrificarmos por uma atividade pessoal ou profissional. O prazer de fazer e realizar.

Quem tem o privilégio de se dedicar ao que gosta, sacrifica seu tempo sem grandes dificuldades. O trabalho é trabalho, mas esta palavra ganha outra conotação. Ele nos deixa a sós, nos faz transpirar, nos traz noites em claro, mas nos dá dignidade e nos oferece uma grande sensação de satisfação.

Sem dúvida alguma vivemos em um país no qual a maioria não possui o privilégio de escolher a atividade na qual realmente se realiza como pessoa, ou seja, o fazer de que verdadeiramente gosta. Para estas pessoas a saída realista é tentar encontrar um objetivo maior naquilo que realiza cotidianamente. Se meu trabalho em si não é aquilo que desejo fazer, e se o sistema social e econômico não pode ser mudado da noite para o dia, devo encontrar neste trabalho, rotineiro e desmotivador, um motivo que possa me trazer de alguma forma prazer. Este motivo sempre existe. Ele pode ser de qualquer natureza, como por exemplo, a melhoria de vida de outras pessoas, o alívio do sofrimento alheio, o apoio ao companheiro que está no mesmo barco, etc.

Ao encontramos algum aspecto em nossa atividade que nos traz um mínimo de satisfação descobrimos um significado para ela. E esta é a palavra chave para tudo que fazemos na vida. O significado do trabalho faz com que permaneçamos, talvez não tão empolgados mas persistentes, na sua boa realização e nos traz um sentido para tantas horas dedicadas a ele.

Voltando ao esforço, mesmo que o significado para o trabalho esteja claro, ele não desaparecerá. Pelo contrário, quanto mais significado encontramos em nossa atividade, mais mergulhamos em nosso trabalho e a habilidade, a qual advém da rotina e a prática diária, torna-se domínio. É falso pensar que a rotina nos cansa e é maçante. Ela nos desgasta quando não nos encontramos naquilo que fazemos. Sem dúvida alguma, ao lado da rotina que nos oferece domínio do que realizamos e do esforço que nos leva a concretizar bem a nossa atividade, o afastamento regular (que não deixa de ser rotina), ou seja, os momentos de relaxamento, descanso ou as tão desejadas férias são fundamentais para arejar a mente. Mas este afastamento não pode ser muito longo.

Todos já devem ter tido a experiência de que quanto mais tempo temos menos tempo encontramos para realizar o que devemos ou desejamos fazer. O descanso é um preparo para fazermos o que dá sentido à nossa vida. Os que ainda são jovens devem buscar atividades profissionais que os realizem realmente como pessoa. Aqueles que já chegaram à chamada terceira idade podem encontrar atividades voluntárias que revitalizem seu ser e melhorem a vida de outras pessoas e do nosso universo social.

De qualquer forma, o significado daquilo que fazemos está acima de tudo. É ele que torna esforço e dedicação necessários, mas não fardos pesados demais para carregar. O significado de nossa atividade e sua realização nos traz dignidade e nos motiva a realizar bem o que devemos fazer. Se vivo desta forma, sou uma pessoa de sucesso.

* Para entrar em contato com o padre Beto, acesse o site www.padrebeto.com.br.

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