Auto Mercado

Dr. Automóvel: Motores híbridos

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Já falamos de novas tecnologias, principalmente as aplicadas nos motores. A mídia mundial divulga sempre o que há de novo em desenvolvimento, porém isso nem sempre representa o que de melhor se faz em termos de tecnologia, mas o que tem maior interesse mercadológico. O lobby atua forte no segmento automobilístico e quem não tem padrinho tem que rezar sozinho.

Uma das vedetes do momento de alta tecnologia são os veículos híbridos. Eles possuem dois motores, sendo um convencional de alta eficiência para uso em estradas e outro elétrico, para uso em cidades. Na verdade, o motor elétrico serve mais do que isso, pois pode também ser usado tanto para baixas velocidades como também para auxiliar o motor convencional em determinadas situações.

As baterias são carregadas pelo próprio motor convencional de várias maneiras. Pode ser através de alternadores durante seu funcionamento como também durante a desaceleração do veículo, transformando a energia de frenagem ou desaceleração em energia elétrica, que vai para as baterias. Este conjunto de dois motores tem um resultado prático imediato: poluem muito menos e gastam 50% do combustível de um carro equivalente. A Toyota lançou em 1997 no mercado o Prius, um veículo híbrido que hoje está na sua segunda geração e cujas vendas dobram a cada ano. Além do apelo ecológico, tem a efetiva economia de combustível e de outras taxas, como por exemplo, em Londres veículos híbridos e elétricos não pagam pedágios urbanos. Outros veículos estão sendo lançados pelas grandes montadoras, como o Ford Explorer, Dodge RAM e GM Silverado. As expectativas de mercado são para que as vendas atinjam um patamar de 500.000 unidades, ou 3% da frota mundial de carros novos. No Brasil ainda não há expectativa para a chegada desta tecnologia híbrida.

Por que aparentemente ficamos para trás? Somos uma economia gigantesca com características próprias, e podemos salientar rapidamente algumas diferenças básicas que nos diferenciam do primeiro mundo, a começar pelo poder aquisitivo médio da população. Um veículo híbrido custa hoje em média 20% a mais do que um equivalente convencional, e isto já desestimula muita gente que só pensa no custo e não no benefício. Outro fator é que ainda não temos uma consciência ecológica desenvolvida como é na Europa, por exemplo. Aqui, a maioria não está interessada no futuro distante, por isso o meio ambiente é tratado com descaso. Nos Estados Unidos ainda nem tanto, é mais marketing do que conscientização propriamente dita, mas na Europa a população é mais esclarecida e engajada. Ninguém precisa pedir para não jogar lixo nas ruas, nem para poluir menos. O povo tem prazer em contribuir com a coletividade em termos ambientais, inclusive prestigiando novas tecnologias menos poluentes mesmo em detrimento do preço mais elevado. Daí que no primeiro semestre de 2004 o Prius teve um aumento de vendas de 857% em relação ao semestre anterior na Europa. Outro fator importante, muito considerado na Europa, mas totalmente desprezado por aqui é o volume sonoro. Em certas capitais européias, veículos de entrega de madrugada como leiteiros e jornaleiros, só são permitidos se forem elétricos. Aqui, quem traz meu jornal às 5 da manhã vem de moto 125 com um escapamento que acorda a quadra toda, e ainda acelera e sai rápido para dar tempo de atender a todas as entregas. Parece que pouco se importa com o sono alheio.

No Brasil, dou razão às montadoras que se orientam pelas pesquisas de mercado para se posicionarem quanto ao lançamento de novos produtos no mercado. Mas seria muito bom que algumas delas tomassem uma posição de liderança e bancassem novas tecnologias, criando novos nichos de mercado. Nós mesmos, aqui no Brasil, temos diversas patentes desenvolvidas neste sentido, principalmente com o álcool, que não são aproveitadas em todo seu potencial. É errado não ter tecnologia própria e ficar apenas na dependência da dos outros. Isto sim é soberania. Sou a favor de melhorar cada vez mais nossos carros de uso interno e não de deixá-los mais parecidos com os importados. Mas o público precisa querer isso, senão não dá.

____________________

* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.

Sugestões para a coluna e perguntas à seção Correio Técnico devem ser enviadas ao e-mail automerc@jcnet.com.br ou à redação do Jornal da Cidade, na rua Xingu, 4-44, Higienópolis. É obrigatório informar nome completo, RG, endereço e contato (telefone ou e-mail).

Comentários

Comentários