“O lado certo a maioria diz que tá errado... o lado errado 0 a 100 ganhando disparado/ O que fazer pra eu mesmo poder responder?” (Música Lado Certo, Lado Errado 2. Composição: Grupo Elementos B - 2007).
O questionamento ético e contundente do jovem “rapper”, que se vê perplexo diante de um cenário vivido de absoluta crise de valores e desigualdades de oportunidades, parece convocar os outros “manos” para ajudá-lo a pensar numa resposta que a primeira vista não encontra solução.
Esse é o emblema, a marca de um movimento cultural e político que nasce num lugar distante, à margem das refinadas produções culturais que figuram no mapa daquilo que convencionamos chamar de “arte”.
Nessa “outra arte”, uma arte engajada, carrega consigo o significado de quem é da periferia, e dia-a-dia se expande para cada rincão do nosso país-continente. Para os mais desavisados, o Hip Hop parece contrariar a tese de que seria mais um fenômeno passageiro de uma tribo urbana juvenil.
Um outro alvo de crítica que por vezes aparece é que o Hip Hop seria mais um movimento artístico propagado pela poderosa indústria cultural norte-americana, buscando novos nichos de consumidores jovens. Em parte, podemos concordar com essa idéia, porém, não poderemos enquadrar o movimento Hip Hop brasileiro com o que de fato acontece no ‘mainstream’ gringo.
A justificativa? Basta contatar as “posses” (grupos organizados de Hip Hop) espalhados por todos os estados brasileiros e se surpreender com o Hip Hop ‘antenado’ com as culturas regionais. Como exemplo, a música Rap junto com o repente e o maracatu no Nordeste, ou com as tradições indígenas, o bumba-meu-boi com a dança Break e os traços do Grafite, apenas para citar algumas fusões no Hip Hop tupiniquim.
Porém, aquilo que mais fascina no movimento Hip Hop brasileiro não são suas diversas matizes estéticas e sua abrangência territorial, mas sim o chamado quarto elemento do Hip Hop: a “atitude” ou a “consciência”.
E é exatamente pelo poder de contestação social, da reafirmação de suas identidades étnicas e históricas, pela promoção de um espaço para pensar no que e como realizar as transformações sociais, rejeitando o lugar da exclusão e da subserviência que a “atitude” do Hip Hop se faz presente.
“Inferior é isso que o sistema quer, mais não me abala o coração bate na sola do pé/ Qual é “neguinho”, mãos pra traz não senhor, eu bato de frente sem ódio luto pela cor/ Qual é “neguinho” mãos pra traz não senhor, eu bato de frente sem ódio luto pela cor [...]” (Música Lado Certo, Lado Errado 2. Composição: Grupo Elementos B - 2007).
E não precisaremos conhecer Capão Redondo em São Paulo, nem visitar a “Cidade de Deus” no Rio de Janeiro, para descobrirmos a força de uma juventude criativa e determinada, que infelizmente é reconhecida apenas pelos indicadores policiais e pela piedade complacente de supostos órgãos assistenciais das classes abastadas.
Aqui, nas periferias da “cidade sem limites” é possível encontrar gente boa do Rap, do Break, do Grafite, e todos “sangue bom”. Não por serem bonzinhos e benevolentes, pois até mesmo a revolta tem lugar nesse caldeirão “hip hopper”, aqui vale o elemento sublimador da arte.
“Sangue bons” pelo protagonismo de chamarem seus “manos” para luta, para a construção de uma nova lógica de civilidade, para um novo mundo possível, pois sabem que a farsa de uma sociedade capitalista só pode fomentar valores que perpetuam sua perversidade e exclusão.
“Mundo pequeno mente pequena, é desde o engenho que vem o problema fora de cena/ Não mostra a cara, fornece a droga e pela droga a gente se mata, plano perfeito acabou o problema/ Acabou com o pobre acabou com o preto, me nega educação e também me nega emprego/ Falsa liberdade falsa realidade, nem sempre quem sorri está feliz de verdade/ E o povo vai levando essa convivência, cada vez mais sem amor sem tempo sem paciência/ Inteligência é preciso ter, é preciso proceder pra sobreviver/ É preciso se esquivar pra se manter, lado certo lado errado de que lado esta você?”. (Música Lado Certo, Lado Errado 2. Composição: Grupo Elementos B - 2007).
Aqui encerro mandando meu salve para todos aqueles que participam do movimento Hip Hop de Bauru. Um salve especial para o grupo de Rap “Elementos B”, que gentilmente me cedeu a letra da canção “Lado Certo, Lado Errado 2”, que ilustra esse texto. Em 2008 com toda luta, lançarão seu primeiro CD. Apresentando armas poderosas para os jovens guerreiros das periferias bauruenses: a esperança e a criatividade!
O autor, Rodrigo Clemente Ballalai, é psicólogo - CRP 06/81154