Para Karl Marx, a história não realiza nada, ela não possui nenhuma riqueza, ela não conduz nenhuma batalha. Quem realmente realiza e possui e batalha é o ser humano, o real e vivo ser humano.
Sem querer simplificar, nós seres humanos possuímos duas dimensões básicas. Nós somos seres gerados com um conjunto de caracteres hereditários e, ao mesmo tempo, seres formados e transformados nas relações sociais que desenvolvemos desde a nossa tenra infância. Isso torna a vida do ser humano algo muito delicado e complexo. Já na família, em seus primeiros anos de vida, o ser humano, com aquilo que herdou de potencial, se defronta com situações de ser amado demasiadamente, equilibradamente, pouco ou simplesmente rejeitado.
Essas situações de relacionamento social, por sua vez, terão determinadas influências no indivíduo dependendo de sua capacidade herdada de percepção. Assim, nessa dialética entre caracteres individuais e relações sociais o indivíduo se transforma e, ao mesmo tempo, transforma seu meio ambiente. Esse processo nunca termina, pois mais tarde as influências sociais se tornarão para ele mais presentes: a condição financeira de sua família, a escola que freqüentará, os amigos que terá, os relacionamentos amorosos que desenvolverá, a religião na qual irá crescer, etc.
Para nos compreendermos e compreendermos os outros é necessário sempre termos em vista o ser humano como particular e, ao mesmo tempo, o ser humano como fruto de um contexto social. Para a melhor compreensão do outro é necessário analisar essas duas dimensões sempre como uma unidade, e uma unidade única. Por isso que a padronização e a simplificação nunca servem para a vida humana. Ou seja, muitos seres humanos que foram criados em uma situação de desamor poderão superar sem grandes dificuldades essa situação e se tornarão pessoas que valorizam a vida.
Outros seres humanos que foram criados em um ambiente de amor e aceitação poderão mais tarde se tornar pessoas frias e individualistas. Não é porque uma criança cresceu em uma favela que será necessariamente um criminoso e não é porque a criança nasceu em um lar de classe média será obrigatoriamente um profissional liberal bem-sucedido. Tudo irá depender das relações vivenciadas e da capacidade de percepção dessas relações por parte de cada ser humano.
Portanto, todos os aspectos da vida devem ser vistos em seu devido contexto, ou seja, sempre em relação aos indivíduos que vivenciam estes aspectos. Não basta simplesmente dizer que o amor é bom, que a paz é importante, que a violência é ruim. Cada um destes aspectos ganhará um determinado valor dependendo do contexto social e dos seres humanos que os experimentam. A vida sem humor não tem graça nenhuma, mas, muitas vezes, o humor pode ser destrutivo e banalizador das relações, ridicularizando, por exemplo, valores fundamentais e as próprias pessoas.
O amor pode, muitas vezes, possuir significados diferentes para as pessoas. Muitos pais por amor aos seus filhos não lhes negam nada e lhes oferecem tudo e pode ser que estes mesmos filhos cresçam com a sensação de que não foram amados por seus pais ou não se sintam verdadeiramente agradecidos a eles. Muitas vezes, o que os filhos recebem de seus pais como prova de amor não é a prova de amor que os filhos merecem ou necessitam. A tão valorizada paz, por sua vez, pode ser simplesmente a ausência de violência e a expressão de um silêncio que não dá espaço para o diálogo, para a livre expressão, para o choro, para a demonstração de descontentamento. Muitas vezes, a violência é a única forma de defesa ou da proteção da vida e da dignidade da pessoa humana e o autor não poderá se sentir culpado por ela.
Sem dúvida alguma é fundamental buscarmos as condições básicas, as verdadeiras necessidades para que a vida de todo o indivíduo se desenvolva, como por exemplo, aceitação pelo grupo, alimentação saudável, saúde preventiva, educação de qualidade, liberdade religiosa, liberdade de expressão, etc. Mas além dessas necessidades é também fundamental refletirmos sobre a veracidade de nossas relações humanas. Em outras palavras, na família, no grupo de amigos, no trabalho e na sociedade de um modo geral deve-se discutir sobre tudo e deixar bem claro o motivo de todas as ações. É falso pensar que muitas ações não necessitam ser explicadas.
Não raramente, dependendo da percepção do indivíduo, o “óbvio” não é compreendido e, portanto, o seu significado distorcido. Por outro lado, os seres humanos precisam ter tempo para aprender a digerir suas próprias experiências. A digestão das experiências nos faz compreender melhor as situações e de que forma estas deverão influenciar nossas vidas. Fechando o círculo, a digestão das experiências deve ser feita também coletivamente. Degustar com as pessoas que convivem conosco as situações vivenciadas é trazer às “claras” intenções, interesses, emoções e conseqüências que envolvem estas mesmas situações.
A digestão das experiências elimina a obscuridade, os mal-entendidos e nos faz compreender melhor a percepção dos outros.
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