Havana - “Cuba en elecciones. Sin amos ni imposiciones”, anunciam meia dúzia de outdoors espalhados por Havana, um dos poucos sinais visuais de que hoje a ilha passa por um processo eleitoral para escolher os membros do seu Parlamento. Mas a realidade é bem mais complexa que a calma e a normalidade nas ruas.
Poucas coisas em Cuba são tão previsíveis quanto as eleições, realizadas nos atuais moldes desde 1992, a cada cinco anos. Antes mesmo de o domingo chegar, os cubanos já conhecem os vencedores, pois há igual número de candidatos e de cargos a serem preenchidos na Assembléia Nacional do Poder Popular - 614, referendados por comitês eleitorais controlados pelo governo.
Pode-se apostar, também, que o comparecimento será maciço, e que o convalescente líder Fidel Castro estará entre os deputados eleitos. Mas desta vez há incertezas, que passam longe do voto popular. O grande debate atualmente em Cuba é o que acontecerá com o ditador Fidel depois das eleições de hoje.
Há mais de 30 anos Fidel Castro preside o Conselho de Estado, órgão colegiado de 31 membros escolhidos em até 45 dias pelos ocupantes eleitos da Assembléia Nacional. E, pela primeira vez, sua recondução ao cargo ainda não é tida como certa, já que, aos 81 anos de idade, ele está doente e afastado do poder desde julho de 2005.
Para quem vê de fora, a campanha política é quase inexistente. Nas janelas de locais públicos, como escolas, estão afixados cartazes impressos em folha de ofício, com a foto, o nome, a idade, o nível escolar, a profissão, uma pequena biografia e as “organizações a que pertencem’’ os candidatos.
Em todos os currículos avistados pela reportagem, os candidatos são do Partido Comunista, o único de Cuba - embora, na teoria, qualquer cubano possa se inscrever para pleitear uma vaga. A Assembléia Nacional em Cuba tem 614 vagas e há uma série de etapas previstas na Constituição até que os candidatos sejam escolhidos.
Primeiro, eles precisam ser escolhidos pela comunidade local; mas a palavra final, entre os milhares que pleiteiam uma vaga, é do Conselho Nacional Eleitoral, cujos membros são indicados pelo governo.
Neste domingo, os eleitores cubanos na prática apenas referendarão a escolha desse conselho. Só há uma chance de os 614 postulantes não serem eleitos: caso não consigam 50% dos votos, o que é praticamente impossível, já que o regime prega o “voto único”, ou seja, que os eleitores votem em todos os candidatos. E, em Cuba, os habitantes seguem o regime - gostando dele ou não.
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Mudanças
Nos últimos anos, Cuba vem se reerguendo lentamente da quebra decorrente do fim da União Soviética - que gerou uma queda de 35% do PIB entre 1989 e 1993. A perda de quase todo o mercado de exportação para seu açúcar e o fim dos subsídios começaram a ser trocados pela indústria do turismo e pela flexibilização de várias profissões.
Como resultado, hoje cerca de 25% da economia é privada, e o PIB cresce acima dos 10%, segundo dados oficiais. Por fim, a Venezuela de Hugo Chávez está fornecendo petróleo subsidiado à ilha, em troca simbólica por ajuda de médicos cubanos.
O país nominalmente comunista se dividiu. Se antes todos tinham padrões de vida relativamente parecidos, com a exceção óbvia dos altos oficiais do Partido Comunista, agora há duas classes distintas: os que ganham em pesos cubanos e os que têm acesso a moeda estrangeira ou ao peso conversível (que circula em substituição ao dólar), que vale 24 vezes mais que o cubano.