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Quem não morre, envelhece!


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Esta semana eu presenciei uma cena realmente lamentável. A filha, quase sexagenária, falando horrores da mãe, internada numa clínica de repouso para idosos. A situação tragicômica surgiu porque alguém perguntou à filha qual o motivo dela haver colocado a mãe para fora de casa na velhice. A senhora perdeu completamente o controle da situação em público e começou a elencar um a um todos os fatos que a levaram decidir-se pela internação da mãe. Dizia em bom som que já não suportava mais as acompanhantes dela (uma diurna e outra noturna) tomarem conta da sua vida, fiscalizando a que horas saía e chegava, quantas cervejas tomava, e o que comia. Que não agüentava mais auxiliar nos banhos da mãe, já que estava acamada e não possuía o controle dos esfíncteres. Que cansou de limpar vômitos e toda a sujeira que ela fazia. Bradava em alta voz que pior do que ter alguém esclerosado na família era cuidar de alguém cronicamente doente, e que se não tivesse internado a mãe, provavelmente iria morrer antes dela. Quase todos balançavam a cabeça em sinal de aprovação, e riam com os palavrões que a mulher empregava para ornamentar o seu suplício.

Pude testar meu autocontrole frente ao desejo de faze-la calar pela forma grosseira como se referia à própria mãe diante de pessoas estranhas. Confesso que fiquei com pena da anciã adoentada. A revolta da filha era tanta que me parecia impossível que conseguisse cuidar da mãe com amor. Tive a sensação de que a filha precisava convencer a si mesma de que tinha chegado ao limite de sua resistência, a fim de justificar o seu ato e tranqüilizar a sua consciência. Talvez, por isso, gritasse tanto e usasse palavras tão ofensivas e vulgares. Vez ou outra ela falava sobre os próprios filhos, o marido, e os planos para uma viagem próxima.

Eu, que assistia a tudo com indignação, observava a circunstância com outros olhos. Intimamente me perguntava quantos anos será que a filha tinha: 55, 57, 59... Com certeza, beirava aos sessenta. Pensava: ela não se enxerga? Não vê que está caminhando para a velhice também? Que farão seus filhos diante deste exemplo que está lhes dando? Irão igualmente interna-la numa clínica de repouso, ou preferirão deixa-la num asilo para terem menos despesas? É incrível como, às vezes, não percebemos coisas que estão sob nossos olhos. Quando temos saúde, não nos imaginamos doentes. Quando somos jovens, não nos imaginamos velhos. Quando temos ao lado a pessoa que amamos, quase sempre adiamos o momento de lhe dizer como nos é cara e importante. O ser humano é realmente engraçado. Acha que sabe tudo e, ao mesmo tempo, é logrado por si próprio.

Torno a afirmar: cada caso é um caso; mas creio que nos fará bem meditar acerca da admoestação de São Paulo na carta aos Gálatas. “Não vos enganeis; de Deus não se zomba. Cada um colherá o que tiver semeado.”(Gl 6, 7). “Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens...”(Gl 6, 10). Como se pode notar, conselhos não faltam. Que cada um possa avaliar o que lhe é proveitoso. Afinal, quem não morre, envelhece!

A autora, Maria Regina Canhos Vicentin, é psicógoga e escritora - www.meguia.net/buscandoafelicidade

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