O leitor de nossos dias, assim como qualquer leitor desde a era antiga, tem de estar atento e tornar-se um “caçador de mentiras” nas publicações, informativas ou artísticas, que se tornam grande sucesso de público, e hoje são chamadas de best-sellers. O título acima é uma referência irônica a um dos campeões de venda, há mais de 100 semanas nas listas cuidadosamente divulgadas. Trata-se de O caçador de pipas, já transformado em filme e concorrendo a prêmios, estes também produzidos e manipulados pela ideologia dominante: o “pensamento único”, mais conhecido como lavagem cerebral, promovida nas culturas dominadas pelos americanos do Norte, um povo que também é vitima de certas ideologias divulgadas por grupos hegemônicos – Opus Dei, Rotary, Lions e outros congêneres.
Não é fácil identificar o papel social e político desses grupos, pois seus representantes geralmente se escondem sob uma capa, que disfarça a ideologia que pregam, apresentando-se como jornalistas, professores acadêmicos, militares ou sociólogos. Mas em algum momento são descobertos e a máscara cai, graças à ação dos caçadores de mentiras. No caso do best-seller citado, não é difícil desvendar a armação política e ideológica: o autor é um afegão que imigrou para os EUA, sabe-se lá como, onde se tornou médico e fez um “curso de escritor de sucesso”, curso que ele mesmo cita na metalinguagem do romance. E no entanto, quantos leitores que se acham críticos e inteligentes caem na esparrela. O objetivo quase óbvio da armadilha, além de ganhar dinheiro, é divulgar a idéia de que os americanos são os cidadãos mais honestos e solidários do mundo e o seu país, o melhor lugar para viver. E o testemunho de um afegão que encontrou a “paz” nesse país é precioso.
Outro dia, conversando com professores sobre esse livro, mais uma vez ouvi os elogios de sempre sobre as qualidades literárias do romance, emocionante e até divertido. É claro que dei minha opinião. Uma pessoa concordou, mas contra-argumentou: “Mesmo que o livro contenha mentiras e distorções, num país em que ninguém lê nada (o que absolutamente não é verdade), não é melhor ler um livro como esse, para desenvolver o hábito da leitura?” Eu respondi que não, é melhor não ler nada que ser vítima da imposição cultural do pensamento único. Mas como fazer para tornar-se um “caçador de mentiras”? Procurar a contrapartida ideológica, como o filme Caminho para Guantánamo, que um dos telecines da Globo já mostrou, mas ainda não encontrei ninguém das minhas relações que o tivesse visto. Há também a imprensa alternativa, não dominada pela hipocrisia da mídia grande, como a revista Caros Amigos que, na edição de julho/2007 (nº 124), trouxe como matéria de capa uma entrevista com três cidadãos ingleses, de origem árabe, que conheceram o Inferno Americano de Guantánamo, instalado sutilmente em Cuba.
O filme e a entrevista mostram a mesma realidade: os soldados americanos, rasos ou de patente, são verdadeiros “animais” tentando animalizar os prisioneiros, simples suspeitos de terrorismo, mas completamente inocentes. Isso é de chorar e não de rir, como alguns fazem ao ler O caçador de pipas, um romance que, mesmo no conteúdo emocional básico, é de uma crueldade incrível, ao mostrar um menino (exímio caçador de pipas) criado na casa de seu verdadeiro pai (um ricaço americanófilo) como filho de um empregado humilhado e aleijado. Outros dizem que é bom conhecer o Afeganistão mostrado no livro, já que não sabemos nada desse país. Não sabemos mesmo? E o livro mostra as belas paisagens das montanhas, a terra agriculturável e a criação de rebanhos? Nada disso, apenas uma cidade bombardeada e vítima do terrorismo americano, como tantas outras em outros países. Para fechar com chave de ouro, falta a informação mais importante, que não está no livro evidentemente, mas nas fontes alternativas e ignoradas: os americanos pagavam (ou pagam ainda) 5 mil dólares para cada afegão ou paquistanês que lhes entregue um “terrorista” a ser enviado à prisão-inferno da base americana em Cuba, onde será barbaramente torturado.
A autora, Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, é doutora em análise semiótica do discurso