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Dom Cândido Padin morre aos 92 anos

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Foram interrompidas, ontem pela manhã, a evangelização e a militância de dom Cândido Padin, que por 20 anos comandou a Diocese de Bauru. Ele foi bispo da diocese de 1970 a 1990. Com 75 anos, ao tornar-se emérito, retornou às origens. Trocou a cidade pelo Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde morreu. Dizia sempre que um monge não fica fora do mosteiro.

A opção pelos pobres e pela Justiça marcou sua trajetória. Se aproximou da vida religiosa quando fazia faculdade de direito no Largo São Francisco. Antes de receber ordenação presbiterial, em 1946, também estudou filosofia na Faculdade de São Bento, em São Paulo, e teologia, também com os beneditinos, em Três Poços (RJ) e São Paulo. Dom Cândido ingressou na vida religiosa em 1942, ano em que se tornou doutor em filosofia.

Vinte anos depois, foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Deu continuidade ao trabalho de dom Hélder Câmara, que tornou-se arcebispo de Recife, na ocasião. Assim como seu antecessor, dom Cândido integrava a ala progressista da igreja. Seu perfil também se assemelhava ao de dom Pedro Casaldáliga, dom Paulo Evaristo Arns e frei Carlos Josafat, por exemplo.

Um dos fundadores da Juventude Universitária Católica (JUC), enquanto esteve no Rio de Janeiro, foi assistente nacional da Ação Católica Brasileira. Em meio à ditadura, chegou a ajudar na fuga de estudantes perseguidos por militares. Por conta disso, chegou a ser ameaçado à distância, contou na última entrevista concedida ao JC, há pouco mais de dois anos, na qual cobrou educação na política.

Bauru

Em 1966, foi nomeado bispo diocesano de Lorena, onde permaneceu por quatro anos. Em 1970 foi transferido para Bauru, onde ficou até tornar-se emérito, em 1990. O site da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ressalta sua atuação na área da educação. Dom Cândido respondeu pelo Secretariado da Educação da CNBB de 1962 a 1968.

Também foi presidente do Departamento de Educação do Conselho Episcopal Latino-americano (1967-1972) e consultor da Sagrada Congregação para a Educação Católica (1968-1973). Escreveu vários livros. Na última entrevista ao JC defendeu a formação política da população. Por conta de suas posturas, chegou a ser considerado, por conservadores, um bispo de esquerda, um bispo comunista, lembra o amigo e professor Isaias Daibem.

“Mas não era nada disso. Ele era um religioso que encarnava a doutrina social da igreja na sua mais legítima expressão”, comenta. Ele ajudou a provocar, por exemplo, o mutirão pela superação da miséria e da fome, conta o atual bispo de Bauru, dom Luiz Antônio Guedes. Já emérito, ao participar do encontro de bispos, chamou atenção para a situação de penúria vivida por muitos brasileiros. Por iniciativas assim, tornou-se conhecido nacionalmente.

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Legado

A militância e a evangelização de dom Cândido Padin foram apenas interrompidas, provisoriamente porque ele deixa vários legados, segundo aqueles que com ele conviveram.

“Ele deixou legado em todos os cantos, não só religioso. Como jurista também. Talvez a maior autoridade no assunto ética que nós tínhamos no País. Nós tivemos um privilégio de conviver com uma figura dessas. Um homem de visão ampla”, comenta o amigo Eduardo Zogheib.

Ele fez parte da comissão de Justiça e Paz da Diocese de Bauru e do movimento Ação Católica, na época em que o bispo era assistente nacional. “É uma perda para a humanidade”, avalia. Dom Cândido Padin estava entre os bispos que representavam os pensamentos mais avançados da Igreja Católica na área social e política, acrescenta Isaias Daibem.

“As encíclicas dos papas, que continham a doutrina social da igreja, para ele eram os documentos mais expressivos. Na vida prática, ele encarnava isso com bastante competência, legitimidade”, comenta. De palavras fáceis, também era acolhedor, lembra o atual bispo de Bauru, dom Luiz Antônio Guedes. “Um homem de fé profunda e de amor, sintonizado com o Evangelho”, conclui o bispo.

Dom Cândido nasceu em São Carlos em 5 de setembro de 1915.

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Enterro

O sepultamento de dom Cândido Padin será na segunda-feira, após missa de corpo presente, que será realizada na igreja do Mosteiro de São Bento, na Capital. A celebração está marcada para às 11h. Ele será enterrado na cripta do mosteiro, onde está sendo velado desde ontem à noite.

Dom Cândido Padin rezava o breviário, ontem por volta das 10h30, quando sentiu falta de ar e comunicou o enfermeiro, que foi buscar medicação. Quanto voltou, o bispo já havia falecido. Para despedir-se dele, caravanas de Bauru devem partir hoje para São Paulo. Na próxima quinta-feira, às 20h, será celebrada uma missa pela alma dele, na Catedral do Divino Espírito Santo, em Bauru.

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