Rodeado pelos seus ministros, Lula comparou a primeira reunião governamental do ano com a Santa Ceia (1495), a obra-prima de Leonardo da Vinci que ainda se conserva no refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão. Nesse encontro com o seu cardinalício faltou ao presidente abrir os braços, e dizer com voz de divino: “Tomai; comei, isto é o meu corpo”. Por pouco deixou de oferecer o cálice com o seu sangue, para a remissão dos pecados de todos aqueles que deixaram escapar a aprovação da continuidade da CPMF.
A reunião, no salão oval do Palácio do Planalto, na verdade não tinha nada de importante a comemorar ou a dizer. Apenas mais um momento de conversa fiada, não com doze apóstolos, mas com 37 membros do maior Ministério que o Brasil já conheceu.
A obra de da Vinci emociona as pessoas pela perfeita simetria e o rosto sereno de Jesus no centro da imagem, para onde convergem as linhas de fuga da perspectiva. Ele acabou de anunciar que um dos apóstolos o trairá. Mas a sua fisionomia não expressa medo, raiva ou angústia. Lula, ao seu estilo, como se estivesse num almoço em família, nada disse sobre traições. Cobrou dos seus ministros que mobilizem seus potenciais políticos para aprovar o Orçamento da União, o aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e a TV Pública. A Santa Ceia - melhor seria Última Ceia -, levou três anos para ficar pronta e 22 anos para ser restaurada. Lula, em cinco anos de governo ainda não produziu nenhuma genialidade. Nem se espera obras imorredouras do presidente do Brasil. Apenas que deixe as alegorias para o Carnaval, bastante próximo. Leonardo pintou Jesus com face e gestos transcendentes que parecem dizer que ele já não pertence mais a este mundo. Lula não perde a pose do político que quer se perenizar, lobo velho capaz de dar lição aos iniciados, como neste rompante de sabedoria: “A política é o centro de atividade de um governo, tudo o que nós fazemos começa pela política e termina tendo um resultado político” (bravo!). Tivesse Jesus usado dos seus poderes mágicos para ouvir esses sábios ensinamentos com dois mil anos de antecipação, o filho de Deus não teria encontrado o fim, dependurado numa cruz, aos 33 anos. Leonardo se valeu dos 12 apóstolos, concebidos como os correspondentes humanos das 12 constelações do zodíaco. Os 37 discípulos de Lula, já vivem no mundo da lua. “Passam meses sem conversar entre si”. Fazem parte de uma coalizão de apoio ao governo, sem resultados palpáveis. Falharam na missão de aprovar a CPMF. São eles a mais perfeita demonstração de paganismo do jogo político, onde os fins justificam todos os meios, até o de acolher um Lobo no ministério e abrir as portas do Senado para um Lobinho, ambos famintos.
Leonardo da Vinci foi um produto típico do ambiente cultural do Renascimento. Tinha curiosidade pelos fenômenos naturais. Estudou astronomia, geometria, mecânica de sólidos.Quem viu a exposição dos seus inventos no Alameda Center percebeu que ele também inventou o torno, ferramenta da qual o nosso presidente tanto se orgulha. Concebeu engenhos fantásticos como aviões, helicópteros, submarinos, pára-quedas, carros de combate, máquinas perfuratrizes e tantas outras coisas que Lula nunca sonhou em fazer. Certamente porque trabalhou muito pouco e logo teve que se aposentar duplamente.
A Última Ceia, assim como o Brasil, ao longo do tempo, sofreu todo tipo de agressão: da ignorância dos padres do convento, que abriram uma porta no mural, passando por imperícias na tentativa de restauração, e bombardeio aéreo na Segunda Guerra. Sua sobrevivência já é um milagre. No afresco, nenhuma fisionomia, nenhum gesto é fortuito. Revela o mundo das intenções ocultas, como o mal dissimulado nas feições de Judas.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC