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Tráfico chega a bairros de classe média

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

Foi-se o tempo em que os pontos de tráfico de entorpecentes, as populares “bocas”, limitavam-se às periferias e, principalmente, às favelas. Hoje, como expôs de forma nua e crua o filme “Tropa de Elite”, o mundo das drogas e todos seus malévolos ingredientes já deixaram de ser uma exclusividade dos bolsões de pobreza e atingem em cheio a classe média, sufocada por sucessivas crises econômicas e ávida por novas formas de gerar renda, e as requintadas mansões da “high society”, o cliente predileto dos traficantes.

As autoridades não escondem o problema, que não é só bauruense, mas nacional, e são taxativas ao reconhecer: o tráfico de drogas “explodiu” e, assim como um vírus letal, disseminou-se por todos os cantos e classes sociais da cidade. “Há pontos de tráfico por toda a cidade, não só na periferia, e em diversos bairros, embora de forma mais discreta, ele atinge pessoas de melhor poder aquisitivo. Recebemos denúncias, por exemplo, de pontos de tráfico em bairros tidos como de classe média, envolvendo, especialmente, os jovens”, enfatiza a delegada Rejani Borro Tiritan, titular da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise).

Ela acrescenta: “Nesses casos, os traficantes aliciam pessoas que seriam mais difíceis da polícia e da comunidade suspeitar para fazer entregas de drogas ou pequenos serviços. São jovens de classe média bem arrumados, com bons veículos, que moram junto com os pais e a família, têm acesso à cultura, são inteligentes, com boa formação cultural e familiar, que acabam se envolvendo com o mundo do crime por razões diversas. Assim, em vez dos usuários jovens de classe média e alta irem buscar (droga) em uma periferia, eles já têm alguns pontos de venda mais estratégicos em bairros mais próximos.”

Apesar de afirmar não poder citar estatísticas, a titular da Dise ressalta que as denúncias sobre o envolvimento de jovens com o tráfico, especialmente os da classe média, tem crescido nos últimos anos, fato ressaltado até mesmo por usuários de drogas (leia mais ao lado). “Vem aumentando gradativamente, pois à medida que a polícia vai minando alguns lugares, o crime começa a se adaptar com outras estratégias. Mas a periferia ainda tem a maior concentração das bocas, só o que está crescendo é o envolvimento de pessoas que moram em bairros com outro perfil. E temos percebido que uma das estratégias é envolver esses jovens para poder ludibriar a ação policial”, frisa Tiritan.

Quem também confirma a disseminação do tráfico das “bocas” para classes sociais mais abastadas foi um experiente integrante da Polícia Civil, que pediu para não ter o nome divulgado. “Essa visão não foge à realidade e não é nenhum absurdo. É a realidade constatada não só em Bauru, mas em todos os centros, e já tínhamos detectado essa migração desde a década de 90”, ressaltou.

Para ele, a explicação para o fato origina-se no ciclo econômico básico das drogas: produção, distribuição e consumo. “Por exemplo, se analisarmos o consumo de entorpecentes nas universidades, o universitário dificilmente vai sair da instituição para ir às bocas. Normalmente, ela vai estar posta na universidade, porque quem vende o fará onde há consumo”, salientou o policial.

Por fim, a delegada titular da Dise informa que as drogas campeãs de apreensões na cidade continuam sendo a maconha, a cocaína e o crack, nessa ordem de quantidade. No entanto, ela revela que a incidência de crack tem se elevado. “Percebemos que está crescendo muito nos últimos dois ou três anos. Mas a maconha ainda é a de maior incidência”, conclui.

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