Considerado um dos principais carnavalescos de Bauru, José Horácio Gonçalves, 58 anos, vive do passado. Os 30 Tamborins de Ouro que ganhou durante anos de dedicação integral às escolas Mocidade Independente da Vila Falcão e Acadêmicos da Cartola são lembranças de uma época que viveu intensamente e que, talvez, jamais se repetirá.
Um dos precursores do Carnaval com samba-enredo e carros alegóricos em Bauru, Horácio relembra, nessa entrevista para o Jornal da Cidade, as alegrias e tristezas vividas a partir de 1976, quando fez parte de um grupo que revolucionaria o jeito de ser de uma das festas mais populares da cidade e que hoje está um tanto quanto esquecida.
Em sua opinião, o Carnaval em Bauru só voltará a ser grande quando for administrado profissionalmente. Só assim para despertar o interesse de patrocinadores, já que o Poder Público não se mostra muito entusiasmado em bancar os custos de uma festa relativamente cara. Sem um projeto bem feito, ele acredita, será muito difícil a cidade voltar a ter desfiles das escolas de samba.
Além do Carnaval, Horácio fala também de outras paixões como o futebol e o artesanato. Nascido em Pirajuí, ele chegou a Bauru com apenas 1 ano de idade, trazido pelos pais e acompanhado por outras duas irmãs. Acompanhe a seguir a entrevista.
Jornal da Cidade - Podemos afirmar que o Carnaval é a grande paixão da sua vida?
José Horácio Gonçalves - Apesar de Bauru não ter mais esse tipo de festa, o Carnaval continua sendo, junto com o futebol, minha grande paixão. Sou fanático por samba-enredo e por Carnaval de rua feito pelas escolas de samba.
JC - E o Carnaval feitos nos clubes?
Horácio - Antigamente, eles eram bons. Hoje em dia, não tem mais motivação. Tanto é assim que só dois clubes de Bauru vão realizar Carnaval e não será todas as noites. Antes, a festa acontecia todas as noites e ainda tinha duas matinês. Mas o sambista gosta mesmo é da rua, de vivenciar toda a preparação, de ficar mais de 40 dias trancado em um barracão preparando as alegorias. É isso que motiva.
JC - Quando e como o senhor começou a se envolver com Carnaval?
Horácio - Tudo começou em 1976, quando o Carnaval de Bauru teve uma grande virada, com o aparecimento da Mocidade Independente da Vila Falcão. Um grupo de amigos se reuniu e decidiu formar uma escola de samba diferente daquelas que eram apresentadas no Carnaval de rua de Bauru naquela época. Os desfiles passaram a ter samba-enredo, carros alegóricos, alas... Foi uma revolução e a Mocidade foi campeã logo no primeiro ano.
JC - Que participação o senhor teve nessa conquista?
Horácio - Fui convidado para fazer os carros alegóricos, que, na época, eram muito simples. Nós fomos nos inspirando vendo fotos e desfiles das escolas do Rio na TV. É lógico que não tínhamos o nível de perfeição das escolas do Rio, mas como começo, foi uma mudança radical e muito bonita. Foi aí que começou a minha vida de carnavalesco. Participei do Carnaval por seis anos consecutivos, sempre com a Mocidade. Foram seis títulos seguidos. Depois disso, eu fui trabalhar na (escola de samba) Acadêmicos da Cartola, que até então não tinha nenhum título. Tive o orgulho de ser campeão novamente. Depois disso, voltei para a Mocidade, onde ganhei mais um título, e retornei para a Cartola. Eu tenho minhas raízes na Mocidade, mas hoje eu sou Cartola.
JC - Quantos títulos o senhor ganhou como carnavalesco?
Horácio - Se não me falha a memória, eu ganhei 15 campeonatos. Graças a Deus, minha vida foi muito vitoriosa dentro do Carnaval. Foi a partir de 1976 que o povo de Bauru passou a gostar de Carnaval de rua e as escolas de samba passaram a ter torcidas. Hoje, tudo isso faz falta. Houve uma vez que a expectativa era tão grande para saber o que as escolas estavam preparando que chegaram a quebrar as vidraças de um barracão para ver quais eram as novidades que seriam apresentadas naquele ano.
JC - O que falta para que tudo isso seja retomado na cidade e o Carnaval volte a ser empolgante?
Horácio - Falta estrutura. Nós temos um produto para vender, mas o rótulo está superado. É preciso um rótulo novo. Acima de tudo, é preciso profissionalismo. Como nós vamos vender um produto para um patrocinador sem ter um projeto bem feito? Ele não vai entrar de gaiato. Tem de ter um enredo bem definido, um samba-enredo, figurino bem elaborado, carros alegóricos. Qual escola de Bauru que faz isso? Nenhuma! No ano passado, todas as escolas fizeram. Mas aí começou uma briga entre dirigentes de escolas que minou o projeto de retomada.
JC - A partir do momento em que as escolas conseguirem apresentar adequadamente esse produto, ele será fácil de ser vendido?
Horácio - Hoje, é meio complicado, porque os próprios empresários que gostam de samba não acreditam nas escolas.
JC - Fica caro para as escolas voltarem a desfilar?
Horácio - Agora fica, porque vai ter de começar tudo do zero. Mas se souber vender bem o produto, com ajuda de um patrocinador dá para fazer um Carnaval bonito. Mas tem de começar já. Porque aí as escolas terão um ano para trabalhar, para se planejar e para divulgar o desfile.
JC - O que o senhor acha da retomada do Carnaval de rua este ano, com o desfile dos blocos?
Horácio - Eu não gosto desse tipo de coisa. Na minha opinião, isso é para tapar buraco, para mostrar que tem alguma coisa. Não é bem por aí. Sem querer criticar a boa vontade da Secretaria de Cultura. Eles estão tentando fazer algo, mas não é assim. Colocar 40 pessoas desfilando de camisetas, isso não é Carnaval.
JC - Nesses anos todos sem Carnaval em Bauru, o que o senhor fez?
Horácio - Eu recebi um convite da Prefeitura de Catanduva para ajudar na realização do Carnaval de rua. Fiquei quatro anos lá. É um Carnaval muito bem feito. Eles são entusiastas naquilo que fazem. As escolas têm no máximo 300 pessoas. A Acadêmicos da Cartola de Bauru chegou a ter 1,5 mil integrantes. As escolas de Catanduva são pequenas, mas fazem parte de um projeto bem elaborado.
JC - Dá para ganhar dinheiro como carnavalesco?
Horácio - Eu trabalhei quase 20 anos com Carnaval sem ganhar um tostão. Tem horas em que você precisa ser realista. Temos família para cuidar. Eu passei a ser profissional. Muitos me criticaram, mas não levaram em consideração tudo o que eu já havia feito de graça.
JC - Você chegou a ir ao Rio de Janeiro ou São Paulo assistir a algum desfiles das escolas de samba de lá?
Horácio - Eu já fui ao Rio acompanhar o desfile das escolas campeãs. Ali você vê o que é profissionalismo, a preocupação com os detalhes, a paixão que o pessoal tem pelo samba. Não adianta gostar, tem de ser apaixonado. Eu entrei na Sapucaí num dia chuvoso. Era 14h. Pensei: ‘meu Deus, estou pisando no templo sagrado do samba’. Você se sente uma pessoa importante só pelo fato de estar ali. Entrei no barracão da Mangueira. As pessoas ali trabalham dia e noite e batem cartão de ponto.
JC - Qual foi sua maior alegria como carnavalesco?
Horácio - A minha maior alegria é ter participado de todo aquele movimento que revolucionou o Carnaval de Bauru. Se ele alcançou uma projeção regional e até nacional, foi graças àquele grupo, lá de 1976, do qual eu fiz parte. Sinto orgulho também de ter recebido quase 30 Tamborins de Ouro. Foi o reconhecimento de um trabalho. Naquela época, era a premiação mais cobiçada. Ela foi instituída pela Rádio Auri-Verde e premiava os melhores em nove quesitos. Era uma guerra. Além disso, não tem como descrever a emoção de entrar para desfilar e ver a arquibancada lotada. É como no futebol. Você pensa: ‘puxa, se eu fizer um gol, a galera vai vibrar’. Se eu fizer um Carnaval bonito, a galera vai vibrar mais ainda. É emoção pura.
JC - E sua maior frustração, qual foi?
Horácio - Foi o último Carnaval. Eu me lembro como se fosse hoje. A Cartola estava prestes a desfilar. Eu fui até o portão de entrada da pista e não vi ninguém na arquibancada do Sambódromo. Abraçado a um amigo, nós choramos e chegamos à conclusão que o Carnaval havia acabado em Bauru. Essa foi minha maior frustração, porque você trabalha, se dedica para fazer um trabalho bem feito e quando chega na hora, não tem ninguém para assistir. Isso é muito triste.
JC - Com o fim do Carnaval em Bauru, o que o senhor faz para sobreviver financeiramente?
Horácio - Eu sempre fui um amante das artes. Trabalho com artesanato, esculturas e um pouco de pintura. Trabalho também como free-lancer para uma empresa de decorações de Natal. Durante o ano, sempre aparece algum serviço, como, por exemplo, fazer bonecas promocionais. Sou aposentado. Trabalhei muito como cartazista de vitrine.
JC - Atualmente, o senhor trabalha mais com artesanato?
Horácio - Sim, mas não para vender. Eu gosto muito de trabalhar com material reciclado. Eu faço distintivo de times de futebol. Ele fica parecendo que foi feito de peça fundida de bronze. Esse é meu hobby.
JC - O senhor disse, no início, que também é um apaixonado por futebol.
Horácio - Sou fanático por futebol na TV. Acompanho todos os campeonatos. Assisto até aos jogos da Terceira Divisão (A-3) do Campeonato Paulista. Eu adoro futebol. Sou um noroestino de coração e tenho paixão também pelo Santos.
JC - Tem costume de ir ao estádio assistir aos jogos?
Horácio - Tenho. Eu já viajei muito. Acompanhava o Noroeste quando jogava fora, mas depois de um tempo, resolvi parar porque vi que o negócio estava ficando perigoso, por causa das brigas. Hoje, com a TV, ficou mais confortável. Você assiste do sofá de casa sem ficar esbarrando em muita gente.
JC - O senhor acompanha também o futebol amador da cidade?
Horácio - Eu já gostei muito do futebol amador. Mas agora, vou mais nas decisões. Não torço para time nenhum, apesar de ter alguns bons em Bauru. Mas também falta estrutura para essas equipes. Agora, estão querendo interditar os estádios. O que esse pessoal do amador vai fazer se não tiver futebol nos domingos de manhã? Estão falando em realizar os jogos com os portões fechados. Já mataram nosso samba, agora vão matar o nosso futebol também? Isso depende de vontade política. O povo tem direito ao lazer.
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Perfil
• Nome: José Horácio Gonçalves
• Idade: 58 anos
• Local de nascimento: Pirajuí
• Mulher: Wanda Terezinha Beghini Gonçalves
• Filhos: Tamara, 31 anos; Fabrício, 27 anos; e Renan, 24 anos
• Hobby: artesanato e caminhada
• Livro de cabeceira: não tenho paciência para ler livro
• Filme preferido: “Amor Além da Vida” (1998)
• Estilo musical predileto: samba e samba-enredo
• Time: Santos e Noroeste
• Para quem daria nota 10: para minha esposa e meus filhos
• Para quem daria nota 0: para quem enterrou o Carnaval de Bauru. Eles sabem quem são.